OVETEKULA |
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2000 |
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| A mesma hesitação de há vinte e quatro anos: que pode interessar, a pessoas que vivem em ambientes tão diversos e com preocupações tão divergentes, a minha última viagem a Angola ou o meu primeiro abraço a guerrilheiros e guerrilheiras que, há décadas, tentaram a libertação de Moçambique? | 1 Indecisão |
| Valerá a pena desenterrar dos milhares e milhares de papelinhos que me cercam aquelas quatro folhas escritas na euforia da última terça parte de 1974? | 2 Utilidade |
| Dos sorrisos maliciosos de quem me considere ingénuo – já devo estar vacinado, não fora eu (ou não pretenda ser) discípulo do Aquinense, que já há séculos nos recomendava, ao menos com o exemplo, não temermos as troças que os idealistas (e dualistas) fariam do nosso realismo (agora diríamos materialismo dialéctico). | 3 "Ingenuidade" |
| O que me preocupa não é esse desfasamento de ideologias – vivências globais das minorias satisfeitas e das maiorias carentes. O que me preocupa é escolher, de entre esses montões de papelinhos, aqueles que vale a pena serem repensados ou mais urgentemente devem ser repensados para dar o meu contributo à construção do presente e do futuro que, em solidariedade com essas maiorias, pretendemos. | 4 Escolha |
| No meio de grandes ou pequenos acontecimentos, quem sabe se não há um ou outro pormenor que passe desapercebido até a astutos historiadores e que o pensador seja capaz de destacar para explicar fracassos passados e evitar futuros, e para facilitar tácticas mais realistas? | 5 Apreender o desapercebido |
| E todos os anos penso e desconsigo enviar algumas linhas para os leitores do FRATERNIZAR. | 6 Adiamento |
| Este ano, porém, depois do que me foi dado viver em S. Pedro da Cova e em Oliveira de Azeméis, não tenho direito de hesitar mais. É a força que vem do Quarto para o terceiro mundo. | 7 Força radiante daquelas operárias |
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| Tinha estado acampado na Galiza (fins de Julho, inícios de Agosto de 1974) e tinha visitado pela primeira vez a Madeira, Porto Santo e grande parte das ilhas dos Açores. O regresso a Quelimane urgia, porque o trabalho político não podia esperar mais e eu não resistia sem passar uns dias em Angola, aliás como era meu costume nas poucas vezes em que, até a independência, me deslocava ao hemisfério norte ou regressava ao sul. | 8 A frátria à espera |
| Logo em Lisboa, porém, fiquei retido no Hotel Altis devido à greve dos TAP. É claro que aproveitei o tempo para rever os amigos de Lisboa. Estive uma tarde com o Fernando e a Rosália (de Moçambique); outra, com o Fernando (do Hotel do Porto), o Luís (irmão dele) e os pais, na residência de cascais. Visitei os pais do Rui Afonso; encontrei na Avenida da Liberdade o Rui de Sousa, aquele amigo que viveu em nossa casa (na Manga) e que já há uns dezoito anos não encontrava nem sabia onde parava. Contactei livrarias e sobretudo o Centro de Informação e Documentação Anticolonial (CIDAC), hoje Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral. | 9 Greve proporciona encontros |
| Em Luanda, logo no primeiro dia, tive de dactilografar uma participação às Forças armadas referente a uma agressão nos muceques de que resultou a morte de um negro e o ferimento de um outro. Isto mostra-vos como fui bem aceite por pessoas que ainda há minutos desconhecia. Logo que se certificavam de que eu estava com o MPLA, sentia-me entre amigos e amigas. | 10 Pátria é onde se luta para que se converta em frátria |
| Na Universidade e no Liceu tive vários encontros; e mais de uma vez comi no meio de estudantes, operários e deslocados de várias raças e de várias condições sociais, todos unidos pelo ideal revolucionário. Estive com a Clara Gonçalves (que havia conhecido na Beira, à ida, e que estudava na Holanda e na Bélgica). Vi rapidamente a Sara, amiga do Alípio, e parece que ficou a gostar imenso de mim. É interessante que já no ano anterior era para a ter visitado, mas temi a insipidez de um encontro sem profundidade: afinal bastaram poucos minutos para sintonizarmos. Estive com a Celina e o Fernando, que teimaram para que eu passasse em casa deles o último fim de semana. | 11 A felicidade dos encontros |
| Mal sabiam que havia de ser um triste fim de semana (o de 7 a 9 de Setembro de 1974), estragado logo no jantar de Sábado, quando o criado do restaurante, muito contente, nos transmitia as notícias de Lourenço Marques: golpe de estado levado a efeito por Kaúlza e Jorge Jardim – uma deturpação do movimento de "Moçambique Livre", levado a cabo pelos Dragões da Morte e que pretendia a independência unilateral (à rodesiana). | 12 Balde de água fria |
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| Mas, antes desse fim de semana, fui ao sul de Angola: estive com o Júlio (estudante de Direito) no Lobito; os pais convidaram-me para ficar em casa deles; no dia seguinte fui com ele a Benguela, e mais uma vez confirmei o que havia dito acima: no fim de uma conversa com um camarada que via pela primeira vez, e como ele não pudesse ausentar-se do banco onde trabalhava, pegou nas chaves do seu carro, e entregou-mas para visitar a cidade, apenas pedindo que ao meio dia lhas restituísse, para ir almoçar. Até me sentia em Moçambique, no meio de pessoas conhecidas há um quarto de século. Ali, porém, havia mais do que vinte e cinco anos de conhecimento, que até poderiam não significar nada: havia o ideal revolucionário – MPLA e FRELIMO são a mesma coisa, o povo que toma consciência de que tem de passar de objecto a sujeito da própria história. O FNLA e a UNITA não têm qualquer representatividade, senão dos reaccionários: aquela parece que representa interesses americanos; esta, europeus. Quanto à Quarta Força surgida em Angola, não passa de interesses capitalistas dos portugueses e brancos radicados na Colónia e que não desistem dos seus privilégios. | 13 No sul, a mesma camaradagem |
| Em Moçâmedes, para onde parti, de novo sozinho, de Benguela (via Sá da Bandeira), deveria encontrar-me com a Néné e o Zézé. Mas não os avisei, devido à irregularidades dos aviões. Calculai como fiquei desolado quando soube que haviam partido para o Lobito (donde eu vinha) exactamente nesse dia. | 14 Tristeza do desencontro |
| Mas gostei imenso de ter estado em Moçâmedes: o deserto, com as suas miragens (que tive a sorte de ver) e a célebre flor welvitsch, proporcionou-me momentos extraordinários. Fiquei em casa de uns missionários goeses, jantei um dia com os pais da Néné (digo, com a mãe e o padrasto), e tive vários contactos que me ajudaram a conhecer a realidade de Angola naquele extremo sul. | 15 Fascínio do deserto |
| E regressei a Luanda, onde me aguardavam a Celina e o Fernando. Fui à praia com eles e com umas amigas e amigos, passámos uma tarde a passear e a jogar a sueca, tudo magnífico, se não foram as notícias que de hora a hora escutávamos de Lourenço Marques. A simpatia com que a Emissora de Luanda falava do movimento e a alegria dos brancos de Luanda (com excepções, evidentemente) mostrava-me nem o foco reaccionário em que estava. | 16 Fim de semana de incertezas |
| Na minha longa mesa de restaurante, por exemplo, só a Celina e um rapazinho recém-chegado de Portugal (depois soube ser um oficial do exército) é que se mantinham do lado da FRELIMO todos os outros, mesmo os que até aí a aceitavam, começaram a dizer tamanhas enormidades que me pareceu melhor ficar calado. Mas, no fim do jantar, embora em Luanda, nessa altura, fosse perigoso exteriorizar ideias revolucionárias, interpelei um por um: –Você explora os pretos? –Não. –E é explorado pelo seu patrão? –Sou. –Então, por que faz essa figura de se aliar aos exploradores em vez de se unir aos explorados? | 17 Os convictos e os oportunistas |
| Aos poucos e poucos, fui verificando que não havia em Lourenço Marques qualquer tomada de poder, mas apenas a tomada da Emissora, com a passividade e conivência das tropas portuguesas. O Acordo de Lusaka, inegavelmente obra prima jurídica, tinha de se cumprir. | 18 O direito vence |
| Segunda-feira, 9 de Setembro de 1974, passei a manhã com a Aránzazu e outras dominicanas (que tiveram de abandonar os Muceques), e, à tarde, iniciei a viagem para Moçambique. Horas de espera dentro do avião sem sabermos qual seria o nosso destino. Os aeroportos de Lourenço Marques e da Beira ou estariam fechados ou não ofereceriam segurança. Era um jumbo, e com poucos lugares vagos. | 19 As incertezas de um voo |
| Finalmente partimos para a Beira, mas, trinta minutos antes da hora de chegada, avisam que vamos aterrar... não na Beira ...nem em Lourenço Marques, mas na Rodésia! Já me imaginava refém de Moçambique Livre. Um rodesiano big percorre as cochias. Ninguém sabe o destino. Finalmente noticia-se a partida para o aeroporto da Beira. Nunca desejei tão pouco estar em Salisbury: noutra circunstâncias, até seria agradável experimentar mais um hotel. | 20 Desvio para a Rodésia |
| E finalmente chegamos à Beira, já de noite, bem vigiados pelas forças armadas e sem ninguém ou quase ninguém a esperar-nos. | 21 Desembarque sombrio |
| Escolhemos os hotéis (desta vez fui para o Embaixador, para, um ou dois dias depois, mudar para o Estoril, indo comer ao D. Carlos), e logo fomos avisados de que nada se sabia sobre os nossos destinos: todos os voos estavam cancelados. A Beira estava em greve, forçada pelos reaccionários, a tensão era fortíssima. | 22 Hospedagem forçada com limite incerto |
| Passei uns dias com o Alípio, a Domínica (que estava em casa da Neca) e os amigos que ia visitando: Comitis, Morgados, Corte Reais, Resendes, e aquele casal (já com filhos bem crescidos) com quem tinha viajado desde Lisboa até a Beira de 29 de Setembro a 3 de Outubro de 1950; e até encontrei pela última vez o Miguel Murupa, já de abalada, antes que fosse tarde demais... A reacção foi cedendo, os voos restabelecidos, e pude regressar a Quelimane, onde o Governador se tinha mantido fiel ao Acordo de Lusaka, o que lhe valeu, até o momento da partida, há dias, os maiores elogios da FRELIMO. (Escritos meus de 2 de Dezembro de 1974.) | 23 Desanuviamento e encontro |
| A reacção aqui, de facto, tinha-se limitado a uma manifestação e pouco mais. O suficiente para se ficarem a conhecer melhor as pessoas. Os estudantes e os capuchinhos de Bari, com destaque para o Prosperino, evitaram um recontro entre frelimistas e reaccionários, que poderia ter sido sangrento. | 24 Também Quelimane sob tensão |
| O Doménico (missionário dehoniano a quem tinha emprestado o carro durante os dois meses de ausência: Julho e Agosto) iniciou com os jovens um belo trabalho de alfabetização (segundo o método de Paulo Freire) nos subúrbios. Nunca vi em Quelimane um grupo tão grande de rapazes e moças de todo as raças (e tanto universitários como liceais e técnicos) inserirem-se com tanta disponibilidade no seio das populações e colocarem-se à usa disposição. | 25 Mas o trabalho político continuou, intenso |
| Esse trabalho continua, mesmo depois da retirada dos universitários, e já vamos no 3.º curso de alfabetizadores (Novembro de 74). O Doménico teve de retirar para o Alto Ligonha, mas tudo continua. Eu tenho trabalhado sob a orientação do grupo base, quer no apoio às reuniões e aos cursos, quer na visita aos círculos de cultura (espalhados pelos subúrbios), quer numa deslocação a Mocuba. Sob o signo da revolução, tudo se vai fazendo com método, entusiasmo e alegria. | 26 Alfabetização funcional e transformadora |
| Cada um procura desenvolver em si o espírito revolucionário e extirpar tudo quanto ainda permaneça de reaccionário. As sessões de crítica e autocrítica são admiráveis, porque aí tudo se afere pelo ideal que nos une. Faz-se uma revisão completa às nossas atitudes sem acepção de idades, instrução, classes, raça, sexo, etc. e sem sombra de qualquer ataque pessoal (o que seria uma atitude reaccionária e, portanto, prejudicial à revolução, como é evidente e contra o que Mao nos põe de sobreaviso). | 27 Luta também interior |
| Numa viagem, por exemplo, fizemos a reunião de crítica e autocrítica à primeira sessão política. Uma militante (a Natércia, salvo erro) sugeriu que a análise não incluísse apenas essa sessão, mas começasse pelo momento em que saímos de casa e entrámos na automotora. Tinha razão: também no comboio revolucionário tem de saber ser revolucionário. A dinâmica revolução-reacção é de um poder transformador total. | 28 Revolucionários também no comboio |
| Com o Acordo de Lusaka terminou a luta armada, mas a luta revolucionária continua – tinha-nos dito Bonifácio Gruveta, em 17 de Setembro de 1974. Revolucionário é todo aquele que trabalha cientificamente para que todo o povo cresça, evolua harmonicamente, no seu conjunto, segundo as leis da cibernética. Reaccionário é todo aquele que impede, estorva, retarda essa evolução. Moçambique agora é um povo que vai deixando de ser instrumentalizado, reificado, coisificado, para se tornar sujeito consciente e activo da sua própria história. É esse o significado dos círculos de cultura espalhados pelo subúrbios: pequenos grupos que se vão consciencializando, a revolução levada ao recôndito dos bairros populares e ao íntimo de cada pessoa. | 29 Felicidade de trabalhar às claras |
| Quem diria que haveríamos de trabalhar à luz do dia e com o apoio governamental, quando ainda há pouco só clandestinamente o podíamos fazer! O primeiro curso que se realizou para animadores foi em Janeiro passado, sob riscos incalculáveis. Livros e apontamentos circulavam com os máximos cuidados. O nome de Paulo Freire era evitado. Há cerca de dois anos conheci o método. Há cerca de um ano fez-se a primeira experiência em Quelimane. A de Vila Pery havia sido suspensa, porque a repressão avançava e temia-se a descoberta desta poderosa arma revolucionária: a conscientização. | 30 O que antes era clandestino... agora é legal e oficial |
| Mas não expliquei quem é o Doménico, referido atrás, nos parágrafos 25 e 26. Deve estar em Moçambique desde 1973, e logo em Nampula (onde se iniciava para o trabalho missionário) sofreu a perseguição da PIDE, tendo ficado sem o dente do siso com um murro dado dentro do jeep em que ia detido. É um dos meus maiores amigos, embora pouco tenhamos convivido. Segue a linha da não-violência activa. É uma simpatia tal que, só por o ter apresentado, uma vez, na rua, a um jovem, logo foi acolhido no meio da juventude revolucionária. E desse encontro resultou o que acima contei. Seria um grande apóstolo entre a juventude (e não só entre a juventude). Mas obrigaram-no a ir para o mato. Pelo muito amor que os superiores têm às populações do interior? Oxalá tenha sido esse o raciocínio! | 31 Um não-violento activo |
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| Estes apontamentos de viagem são extraídos de uma carta escrita em 2 de Dezembro de 1974, que provocou as mais diversas reacções, desde a crítica virulenta à silenciosa indiferença, e também ao aplauso de quem vivia e ainda vive (ontem mesmo o confirmei) o ideal da libertação do povo. | 32 Arquivos sem poeira |
| Só que há vinte e quatro anos, tínhamos o apoio oficial e até a protecção de guerrilheiros e guerrilheiras (não confundir com guerreiros), e agora temos de remar contra a maré, desprotegidos e no meio dos riscos constantes de um império: único (o muro não foi derrubado?), | 33 Derrota definitiva? |
| - globalizante (os excluídos contam?), | |
| - fim da história (terminadas as privatizações, quem se atreverá a continuá-la?), | |
| - democracia perfeita (a hipocrisia não é a verdade?). | |
| Riscos? Nulos. Até poderemos dizer e, talvez, fazer tudo... desde que: | 34 Riscos? |
| - não insistamos demasiado nos muros emergentes e bem mais altos do que o de Berlim, | |
| - não perturbemos a globalização com os "inexistentes" excluídos, | |
| - não tentemos que esses excluídos se tornem sujeitos de uma história que está a Terminar tão lindamente sem eles, | |
| - não caiamos no "absurdo" de querer estender os direitos humanos a "inexistentes". | |
| Riscos? Chegados à perfeição da democracia, só loucos podem desejar continuar a caminhada da história, e loucos só têm cabimento em estabelecimentos adequados. | 35 Conde Ferreira |
| No Extremo-Oriente, antigo companheiro de luta (companheiro e professor, porque na altura parecia bem mais adiantado do que eu) apelidou-me de exagerado e excêntrico (...por ter sido seu bom discípulo?). Talvez por compaixão, não me apelidou de louco; mas é claro que o exagero é meio caminho para a excentricidade, e esta para a loucura. Não foi assim que Cristo com tanta insistência mereceu essa acusação por parte dos colaboracionistas (ora por oportunismo teórico ora pragmático) do império da altura e sobretudo por parte dos familiares e conterrâneos? E não será por isso que nas homilias se silenciam ou contornam... os exageros, as excentricidades e as loucuras das propostas evangélicas? |
36 Caminho para a loucura |
| Polana, Maputo, 15 de Novembro de 1998. |
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| 17 de Setembro de 1974: de manhã, uns três carros (grupo dos democráticos, grupo dos estudantes, grupo dos capuchinhos de Bari, assim chamados pelo local de reunião) dirigiam-se ao Irrua (Cerâmica). Além destas poucas pessoas, apareceu também o Intendente, dois oficiais das Forças Armadas, um fotógrafo e três jornalistas. Quelimane nem sonhava com o que se ia passar. | 37 O grande dia para Quelimane |
| O sol já estava alto quando alguns carros e um machimbombo, vindos da base de Milange (aberta, salvo erro, em 1 de Julho anterior), transportavam alguns chefes da FRELIMO e, talvez, uma meia centena de guerrilheiros e guerrilheiras. Pararam ao pé de nós, abraçámo-nos naquele abraço que há anos esperávamos, naquele abraço preparado com tantos riscos e tantos sofrimentos. | 38 O grande abraço |
| E, sem perda de tempo, todos avançámos para Quelimane, no meio de cânticos revolucionários, com a bandeira de Moçambique desfraldada, numa comoção, numa alegria e num entusiasmo que talvez há séculos se não vivia. Da cabine, subi para cima do Jeep. O espectáculo era único. À medida que avançámos, via-se toda a gente, que, ao longe, trabalhava nas machambas, largar tudo e correr para a estrada a saudar as Forças Populares de Libertação de Moçambique. À medida que nos aproximávamos de Quelimane, o espectáculo tornava-se sempre mais grandioso. Muitos conseguiam saltar para os carros. Todos acorriam à nossa passagem. | 39 O grande desfile... improvisado |
| De súbito, o cortejo – já enorme – pára. Entreolhamo-nos: –Que foi? Estávamos em Namacata: Bonifácio Gruveta, o comandante das FPLM e, depois, governador da Zambézia, vai abraçar a mãe, que já não via desde o início da luta armada. Todos nos sentimos emocionados. Mas foram só breves minutos. Urgia entrar na cidade. E, alguns quilómetros depois, eis-nos a percorrer apoteoticamente as ruas de Quelimane. | 40 O encontro com a mãe |
| Os europeus estavam espantados com o que viam. Chegados ao recinto do edifício das repartições do governo, alguns chefes guerrilheiros e guerrilheiras assomaram a uma varanda do prédio Bulho e falaram à população. Foram homens e mulheres que libertaram Moçambique; e, pelo Acordo de Lusaka, jamais haverá discriminação sexista – como costumam dizer as minhas camaradas de alfabetização. Foi o primeiro comício em que tomei parte em Quelimane. | 41 O grande comício espontâneo |
| Parte dos guerrilheiros ficou no quartel. As guerrilheiras e os chefes com alguns outros guerrilheiros ficaram hospedados no convento dos capuchinhos de Bari durante cerca de quatro semanas. Eu quase todos os dias ia lá jantar. Durante anos que evitei comer com os opressores. –Sabes por que confiamos em ti? – perguntava-me por aqueles dias uma companheira de trabalho negra, para logo responder ela mesma: –Porque não comias com eles. Agora sentia uma alegria imensa em comer com os libertadores. Pouco conseguia falar com eles, porque trabalhavam desalmadamente nas sessões com o povo, na vigilância, nos contactos com as autoridades ainda em exercício. Mas pelo menos às refeições podia ouvi-los e, no fim, tomar parte nos colóquios. | 42 Hospitalidade capuchinha |
| O Stefano, que por vezes aparecia no fim do jantar, dizia-me: -Estes serões parecem mesmo os dos primeiros franciscanos. | 43 Semelhança de ideais |
| E o Clarindo e outros que conheciam os revolucionários da América latina já me tinham falado da mística do guerrilheiro. Mas agora pude senti-la de perto. A primeira preocupação, ao chegarem à cidade, além da segurança, foi o não se deixarem contaminar, o não se deixarem corromper. A corrupção, porém, não vem só do álcool, da suruma, da prostituição ou do suborno declarado. A corrupção vem de certos convívios, de certos convites que se aceitam, de certas lisonjas, de certos presentes, de certas delicadezas. Contra tudo estavam prevenidos. | 44 Mística revolucionária |
| Mas, longe de ficarem numa atitude negativa, de medo, contra o que os ascetas chamariam pecado (primeira via da santificação), os guerrilheiros vinham com a grande preocupação de aprender do povo (via iluminativa) e identificarem-se com o povo (via unitiva). A FRELIMO é o POVO. Não está Cristo em tudo isto? E, se lhes falta o Evangelho, conseguirão manter-se nestas alturas? | 45 Através de uma ascese popular |
| A Igreja local e a Igreja de Roma estará, com os homens que a servem, à altura desta missão libertadora e salvadora? Por que será que, nesta emergência, Mao convence e Cristo não, quando afinal a verdade e a eficácia de Mao está exactamente na parte (grande parte) que coincide com Cristo? Será porque a Palavra evangélica já não tem força ou porque os evangelizadores a deturpam, a retorcem, a escondem? A reacção da hierarquia continua a ser aflitiva. Seremos capazes de também a ela levar a revolução? | 46 Hierarquia: colaboracionista antes, do contra agora |
| De 18 a 21 de Novembro de 1974 estive em Morrumbala no Capítulo regional dos Capuchinhos de Bari, presididos pelo Provincial, que no ano anterior me havia hospedado no convento de Santa Fara (na cidade de Bari, no sul da Itália). Ajudei-os na elaboração do documento sobre a Pobreza, e devia regressar logo na Terça ou Quarta-feira, quando, com grande espanto meu, até da parte dos velhos me vieram pedir para ficar até o fim. Eu sabia que os novos apreciavam a minha actuação; mas que os veteranos, além de me suportarem, Quisessem a minha presença em actos tão íntimos como são os capitulares, foi uma grande surpresa. Vim edificado com aquela abertura: um capítulo, antigamente reservado só a frades, e da mesma ordem ou até só da mesma província, agora activamente participado por religiosas e outros elementos leigos de ambos os sexos. Também lá estavam dois jovens americanos: o Bernardo, missionário leigo na Morrumbala, e a Katy, missionária leiga no Luabo. Gostei muito de rever esta última, que tinha chegado em angustiantes momentos do início do ano. | 47 Um capítulo que aceita colaboração exterior |
| O Norberto já regressou de Espanha e está como professor no liceu. Ensina Filosofia, História e Geografia. Moçambique é uma nação não pluri-racial (como antigamente se dizia, partindo logo da diversidade de raças), mas anti-racista (isto é, onde se não faz acepção de raças, onde se olha apenas para a pessoa humana e para as suas qualidade e dignidade). Moçambique é o primeiro país de língua oficial portuguesa (não sei a Guiné-Bissau, que nos antecedeu com a sua independência unilateral em 73) que reconheceu igualdade absoluta de direitos a ambos os sexos. Que eu saiba, nenhum país europeu ainda o conseguiu, embora já haja outros países africanos que a decretaram após a independência. (Note-se que escrevia em 2 de Dezembro de 1974.) Moçambique é uma nação onde todos têm lugar, desde que não sejam reaccionários. Quem quiser privilégios ou não desistir deles é melhor que saia e não volte. Os revolucionários, pelo contrário, devem regressar urgentemente. São precisos. Fazem falta. Agora para Moçambique, amanhã para a libertação dos países irmãos. | 48 Nação anti-racista e que supera o sexismo |
| Tudo quanto tem acontecido a intimidar quadros válidos é obra dos reaccionários, e quer os que pegam em armas quer os que lançam, acolhem ou propagam boatos, quer ainda os que nada fazem para ajudar na mudança das estruturas coloniais ou ridicularizam o nosso esforço revolucionário – todos são altamente prejudiciais e perigosos. Pais e professores, com algumas excepções, são do piorio: continuam a domesticar filhos e alunos. O António José esteve cá, em Quelimane, uns dez dias e trouxe-nos a interpretação correcta de tudo quanto se passou em Lourenço Marques. É claro que qualquer provocação, sobretudo armada, imediatamente excitará as populações e sobretudo as massas suburbanas. | 49 Armas da reacção |
| As tropas estão a ser mandadas embora, segundo suponho. Nunca se sabe onde estão os fiéis ao Movimento das Forças Armadas e os fiéis a Kaúlza. Por outro lado, aqui em Quelimane, aumentaram as Forças Populares de Libertação de Moçambique. | 50 Até que enfim: tropas em retirada |
| Os Dragões da Morte querem lançar o terrorismo urbano, mas estamos atentos, e aqui mesmo temos um comandante especializado em guerrilha urbana, embora todo o treino destes dez anos tenha sido no mato. É claro que os mercenários que ganham fabulosos salários poderão provocar mortes: é fácil fazer explodir uma bomba ou matar à queima-roupa, mas já não impedirão a marcha da revolução. | 51 Mas o perigo não está erradicado |
| A escassez de quadros talvez fosse a esperança dos reaccionários , mas a verdade é que, se assassinarem os dirigentes que cá temos, reforços virão da Tanzania, onde muitos outros trabalham. O Carlos Lobo, por exemplo, continua lá, embora já tenha vindo a Lourenço Marques. | 52 Reforços ainda na rectaguarda |
| Todo o povo está vigilante: agora não são precisos pides. Qualquer manobra será imediatamente detectada e neutralizada. Por outro lado, vive-se um clima de confiança e alegria: o trabalho é tanto que nenhum revolucionário perde tempo com boatos e medos. Só os reaccionários, activos e passivos, vivem no terror. Uns, porque maquinam o mal; os outros, porque, não trabalhando pela construção de Moçambique, passam a vida a lamentar o que pode acontecer de desgraças e a recordar melancolicamente o passado. Que pena não se poderem manter os privilégios em vias de desaparecer! Que pena não poder restaurar-se o passado colonial! E assim vão envelhecendo, como envelhecem todos quantos não acompanham os tempos ou, mais do que isso, não antecipam os tempos. | 53 Vigilância, trabalho, unidade |
| Sobre as testemunhas de Jeová, que eu próprio nos anos cinquenta tanto ataquei, penso que têm muito de válido. Foram os primeiros objectores de consciência em Portugal, pelo menos de uma maneira colectiva e pública e enfrentando os tribunais com a Bíblia na mão. Fazem pela divulgação dos Livros Sagrados o que poucos de nós fazemos. Com esta plataforma tão válida, parece-me que pode estabelecer-se um contacto benéfico, ajudando-as a interpretar melhor os textos sagrados. Aliás, quantos de nós, católicos e protestantes, não os interpretamos ainda hoje fundamentalisticamente? | 54 Injusta repressão |
| E quantos de nós, revolucionários, cristãos ou não, quantos de nós, no meio desta euforia de 74 e 75, não guardávamos, no íntimo, germens de reacção, que em breve se manifestariam, e que a preconizada luta interior não conseguiu erradicar? | 55 A reacção mais perigosa |
| Por isso, João Honwana, com uma lucidez empolgante e uma juventude contagiante, não se cansava nem nos cansava – tal era a sua eloquência – com as suas longas análises e oportunos alertas, sempre em fraternal diálogo. | 56 Um comandante esclarecido |
| De facto, não existem revolucionários a um lado e reaccionários a outro: a linha divisória passa por dentro de nós mesmos. | 57 A fronteira que nos divide |
| Penso que valeria a pena recordar algumas dessas manifestações, porque a culpa do que veio a acontecer não foi só dos outros... | 58 Para evitar as mesmas quedas no futuro |
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| Queria, no entanto, centrar-me no 17 de Setembro de 1974, nesse dia de euforia, de encontros inesquecíveis, de início de uma nova etapa de trabalho revolucionário, sério e entusiasmante. | 59 No meio de tanta alegria |
| Nesse mesmo dia, no meio de toda aquela alegria jamais vivida no meu primeiro meio século de vida, uma conversa com o comissário político, no meio da tarde, no terraço do convento dos capuchinhos, deixara-me reflexivo, reticente, preocupado. O assunto, parecendo banal, colidia com a essência da própria revolução. | 60 Uma sensação de tristeza |
| Noutra data não muito distante (mas que dificilmente agora determinaria), o Prosperino chamava-me a atenção (não sei se também preocupado ou apenas crítico) para o silêncio revelador (?) daquela que haveria de ser a primeira dama (que expressão tão pouco revolucionária!) perante uma intervenção minha... sempre acalorada, é evidente. | 61 Silêncio revelador? |
| E uma outra cena, essa logo nos primeiros dias em que os capuchinhos hospedaram no seu convento as Forças Populares, também nunca me pode esquecer, embora com sabor a profecia da desgraça. | 62 Profecia da desgraça |
| Um dos comandantes, cujo nome já não me lembro, parecia triste, a reflectir com a cabeça apoiada numa das portas de entrada. Eu passeava na grande varanda o rés-do-chão com uma companheira, sem dúvida a analisarmos os acontecimentos recentes e a planearmos o próximo trabalho. Ao chegarmos ao pé dele, esta logo o interpela: "–Por que estás triste, Camarada?" Olhou para nós, e apenas disse: "–Estava a pensar no revisionismo (...que não tardará)." | 63 Revisionismo à espreita |
| Houve culpas, sem dúvida, e irresistíveis, dos outros, mas nós também as tivemos, e vieram a agir como cumplicidade facilitadora. | 64 Cumplicidade facilitadora |
| E, no entanto, no início, pareciam desvios bem pequeninos ... que mesmo na euforia da queda do colonialismo português (caiu mesmo?) não poderíamos ter ignorado nem sequer minimizado. | 65 Insignificâncias que afinal significam |
| Como a amada, no auge do enlevo do encontro com o amado, mesmo quando este lhe dizia: "–Vê o inverno: já passou! Olha a chuva: já se foi!", soube muito bem retorquir: "–Agarrai-me as raposas, as raposinhas, que devastam os vinhedos." (Cantares,2,11,15) | 66 Raposinhas |
| Ou como os MAKOLO – os grandes na sabedoria lómwe – não se cansavam de fazer ecoar nos nossos ouvidos: | 67 Sabedoria dos inícios |
| –NYENYENYE YANYETTIHA MUKUMI WA MMWENE – a chuva miudinha molhou até a manta do rei (BB/136): aforismo em forma de parêmia recolhido por Gian Battista Brentari, aquele gigante na evangelização que, numa empatia invulgar, chegou a falar o lómwe melhor do que a própria língua materna. | 68 Chuva molha tolos |
| E Elia Ciscato, que continuo a considerar o maior antropólogo que temos em Moçambique, e prossegue a evangelização do povo no norte da Zambézia (mas, por outro lado é pena que não ensine numa das nossas universidades), na sua ainda muito mais vasta recolha de dizeres comuns, tem dois aforismos que não deveríamos ter esquecido naqueles dias de euforia: | 69 Valor bem aproveitado? |
| –ON’KHWELA MUNYEPU WA VATE – o coelho morre por causa da erva fresca do quintal (458/C). Quer dizer, até as pequeninas coisas, às vezes, fazem sofrer muito: podemos morrer por causa daquilo de que mais gostamos. | 70 Até o coelho caíu |
| E de que é que mais gostamos? O que é que mais invejávamos no colonizador e nem sequer ousamos tentar extirpar das nossas mentes? | 71 Servir ou ser servido? |
| Ter moleques – a grande tentação, a inexpugnável tentação, porque nem consentimos considerá-la como tal. Tabu, embora inconsciente em muitos, nas sessões de crítica e autocrítica. E, pior ainda, tentando justificar marxisticamente, como os cristãos com tanta frequência tentam justificar evangelicamente as maiores aberrações. | 72 Vocação revolucionária ou de ser patrão? |
| –WAHULA MURUPA – uma desfiadura rasga a mochila (124/C). ...E, na euforia do primeiro abraço entre as Forças Populares de Libertação de Moçambique e o povo do Chuabo, nem deu para reparar na desfiadura que começava a rasgar a mochila! | 73 Rasgão visível começa em desfiadura desapercebida |
| O texto constante dos parágrafos trinta e sete a setenta e três foi elaborado em 2 de Dezembro de 1974, e retocado por uma reflexão que talvez já tenha começado na Zambézia, mas se prolongou a contemplar o Índico, instalado no Polana a saborear um bom café (...não fora eu um razoável edonista), se continuou ainda há dias a sintonizar com as montanhas do Reino da Swazilândia, e finalmente terminou hoje, manhã do segundo Domingo do Advento do Ano A, a 6 de Dezembro de 1998, na solidão do Arquivo Histórico de Moçambique. |
74 Localização no tempo e no espaço |
| Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro |
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| É fácil de dizer que todas as profissões são boas, necessárias, têm a sua razão de ser, e padres e freiras até são capazes de afirmar que todas são queridas por Deus (que deus?), em todas nos podemos santificar... como se a resignação ao mal ou a estupidez algum vez pudessem ser santificáveis... | 75 Todo o trabalho é bom |
| Bastará, porém, certas situações atingirem-nos, ou sequer tocarem-nos ou passarem-nos por perto... para logo nos indignarmos e praguejarmos: –Que mal fizemos para que tal nos acontecesse? Não merecíamos tal sorte! | 76 Para os outros ...é claro |
| Que profissões, então, entendemos serem intoleráveis? Todas aquelas que nem podemos imaginar para nós ou para qualquer dos nossos filhos ou dos nossos maiores amigos. | 77 E se fôssemos sinceros? |
| E nem é preciso ilustrar o panoramas. Um agente de saúde, a qualquer nível que seja, um construtor de imóveis ou móveis, um arquitecto de exteriores ou interiores, ou um decorador, um agricultor ou um industrial, um comerciante, um educador ou um professor, um artista, um escritor, um pensador – eu sei lá: tudo isto é pensável para nós, os nossos filhos, os entes mais queridos, desde que se tenha essa vocação. | 78 Só o que razoavelmente pode ser apetecível |
| Mas quem – de mente sadia ou não forçado por circunstâncias premente – pode querer ser engraxador de sapatos, varredor de ruas, porteiro, criado de servir, para já nem falar em carrasco, capataz, espião e tudo o mais que a sociedade exploradora inventou? | 79 Nem sadismo nem masoquismo |
| Se passarmos destas vivências tão reais em cada um de nós – de com tanta naturalidade acharmos bem que todas essas profissões existam desde que nem sequer seja imaginável que elas sejam ou venham a ser exercidas por nós ou por alguém que consideremos parte de nós mesmos –, se passarmos deste quotidiano para o confronto de tais profissões com a essência da cultura dos diversos povos, teremos então outra série de reflexões. | 80 Na diversidade de culturas |
| Numa cultura greco-romana, que conseguiu assimilar os agora portugueses (e não só) até a medula – pensemos como dos celtas só restam duas escassas dezenas de vocábulos –, aceitar o binómio senhor-servo como fatalidade ou até como ideal é muito fácil. | 81 Assimilados até a raiz dos cabelos |
| Tão fácil que até o aristotelismo repensado pelo tomismo e neotomismo não conseguiu neutralizar o platonismo com todos os seus diversos seguidores idealistas, dualistas, maniqueístas, materialistas mecanicistas. | 82 Nem o hilemorfismo vingou |
| Até a hierarquia católica – que tão zelosamente impunha às suas universidades e seminários a doutrina aquinense (ainda hoje o parágrafo 3 do Cân. 252 do Código de Direito Canónico é explícito) – não resiste à tentação de impingir aos laicos catecismos eivados de platonismo e homilias do mesmo género, que temos de gramar em silêncio e sobre as quais só nos é dado pedir qualquer eventual explicação na sacristia... | 83 Graças à cumplicidade das Congregações ditas Sagradas |
| Engaiolados assim por uma filosofia domesticadora (alma prisioneira do corpo) e uma pastoral mentalizadora, como poderemos lutar pelo realismo contra o idealismo, pelo materialismo dialéctico contra o materialismo mecanicista, pela visão global, clara e distinta do mundo contra o dualismo, pela libertação contra a servidão? | 84 Luta inglória |
| Assim não admira que tão natural e facilmente aceitemos o binómio senhor-servo em todos os sectores da nossa via e do nosso pensamento, e nem sequer nos lembremos de que podemos e devemos destruí-lo, se de facto queremos ser felizes e não nos contentemos com a ilusão de o ser, com a mentira ou pelo menos a falsidade que constantemente estamos a impingir a nós mesmos e aos nossos cúmplices, quando nos reificamos ou reificamos os outros. | 85 de consequências lesa-humanidade |
| E essa dicotomia (senhor-servo) talvez não seja tão indestrutível como parece – não só no campo teórico como no prático. E se para o conseguir, naquele, basta libertar a inteligência pela verdade, neste, basta libertar a vontade pela justiça, porque tanto é injusto o explorador como o explorado – um, por explorar, outro, por se deixar explorar (ainda que seja com o intuito de ser privilegiado...). Tanto um como outro estão a impedir-se de serem felizes. | 86 Binómio letal |
| Se, porém, um dos termos desse binómio se recusar a sê-lo, automaticamente o outro deixa de poder existir como tal, e a dicotomia destrói-se a si mesma: proposição que, para ser pronunciada, talvez não exija grande coragem, mas que, para ser praticada, pode exigir heroicidade. | 87 Solução fácil na teoria... ...martirial na prática |
| Ao fim de séculos, na cultura greco-romana, ainda se não chegou à conclusão definitiva (alguma coisa é definitiva?) de que o dualismo não é uma vertente dessa cultura, mas simplesmente – ou exactamente – uma anticultura. | 88 Anticultura |
| Na cultura banta, pelo contrário, se tudo parece mais simples teoricamente (tal é a riqueza da sua filosofia!), na prática as coisas cada vez se complicam mais – graças à assimilação galopante, se não em extensão (os camponeses e alguns intelectuais continuam fiéis à própria identidade), ao menos em profundidade, nas mentes dos favorecidos pela economia de mercado, que repudiaram constituir-se em vanguarda para se constituírem em elite. | 89 Uma luz donde menos se esperava |
| Que de uma guerra resultassem escravos, até podia acontecer; mas não definitivamente: por fim, ou regressavam ao seu povo ou se integravam, por opção, na nova comunidade humana. | 90 Desvios não definitivos |
| Que trabalhassem para outrem por solidariedade – é bem patente nos usos e costumes. Que aceitassem o estatuto de trabalho por conta de outrem – não é imaginável (a não ser à força e sempre com relutância). | 91 Surge o inimaginável |
| Que, em vez de trabalho individual ou familiar, se optasse pelo trabalho colectivo – com distribuição do produto proporcionalmente ao trabalho de cada um – tudo muito bem, numa mentalidade genuinamente banta. Trabalho para enriquecer patrão estrangeiro – só por oportunismo (ou à força, evidentemente). Trabalhar para compatriota armado em patrão – só por grande necessidade, mas sempre com grande raiva. Quem enriquece sozinho é demónio – ONRELA YEKA MUKWIRI. | 92 Só à força |
| Falta de trabalho? Impossível onde impera a solidariedade, Pode, isso sim, a sua repartição ser viciada. Mas, de um modo geral, todos contribuíam segundo as suas capacidades. | 93 Um falso problema, mas rendoso |
| Que numas épocas do ano haja mais serviço e noutra, menos – isso é natural. Que qualquer melhoria tecnológica diminua a necessidade de mão de obra – isso até é bom. Que, em vez de diminuírem as horas laborais de cada um, se sobrecarreguem uns e se lancem na inactividade outros – isso é uma aberração na mentalidade banta. | 94 Outro absurdo ainda mais rendoso |
| Que, para comer, se tenham de inventar serviços inúteis ou até prejudiciais ou indignos para o ser humano – isso seria igualmente aberrante. Como aberrante seria trabalhar só para aquecer. Para isso estão as actividades lúdicas: não as profissionais. | 95 Trabalho? Só o racional e livre |
| Que o trabalho doméstico nem sempre tenha sido correctamente dividido – também é verdade: certos serviços mais para mulheres, outros mais para homens, Mas tudo de tal modo flexível que, mal surja um impedimento, logo a substituição surge sem qualquer dramatismo. | 96 Divisão de trabalho |
| Por exemplo: à mulher compete a cozinha; mas qual o homem (ainda não contaminado pelo vírus da assimilação) que não sabe cozinhar e não o faz nos impedimentos da mulher? | 97 Flexível |
| Mesmo assim, na cultura banta, ainda se não chegou ìndiscriminação profissional, à perfeição de levar a todas as profissões e tarefas as dimensões feminina e masculina. Isso só a revolução – não a colonização – é que nos trouxe. | 98 A caminho da perfeição |
| (Seria bom que reflectissem nisto certas jovens armadas em contra-revolucionárias, que, no entanto, gozam e não abdicam das conquistas dessa mesma revolução que se dão ao luxo de repudiar, como agora passou a ser moda. Facto constatado há muito entre europeias, é doloroso ter de constatar agora entre africanas.) | 99 Incoerência também entre as mulheres |
| Que se saiba, no entanto, também nunca se chegou (a não ser em meios ditos "civilizados") à incivilização – aberração – do homem senhor do mundo, a mulher rainha do lar: ele, só fora de casa, ela, só dentro de casa. No mundo banto sempre a mulher trabalhou fora e dentro de casa, e o homem a mesma coisa, embora em tarefas distintas, como se disse. Assim os vemos: ela a cozinhar, ele a costurar; ela a capinar, ele a derrubar e estroncar; ela com a rede de caça, ele com a zagaia; e até na pesca, naquelas lindas praias de Pemba, nunca me esquece de as/os ver juntos. | 100 Os dois géneros sempre presentes |
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| O problema não está na existência de profissões femininas e profissões masculinas. Nisso estávamos todos de acordo desde o primeiro dia – o tal dia de euforia (17 de Setembro de 1974). O problema estava no âmbito das denominadas (pela revista VIDA NUEVA, de Espanha) profesiones increíbles. | 101 "Increíble" |
| E nem sequer em todas elas. Lembra-me bem como acabámos com explicadores (então os professores que fazem nas aulas?) e guardas nocturnos (então qual é a tarefa dos polícias?). E de como nos chocávamos com os engraxadores (então cada um não pode limpar os próprios sapatos? então admitimos um ser humano a nossos pés? então não temos tanto trabalho útil a realizar?). | 102 Plataforma de acordo |
| O problema estava nos serviçais domésticos – último reduto do colonialismo que se instalara no mais recôndito das cabecinhas de quem se preparava, afinal, para uma pseudo-independência. Quantos moçambicanos ficariam assim condenados ao servilismo? E agora não para servir estrangeiros: agora os patrões seriam os compatriotas... De um dia para o outro, se dividia de novo o País em senhores e servos. | 103 Pomo de discórdia |
| Esse binómio estava ultrapassado na produção – no projecto emergente de cooperativas e empresas estatais (talvez até não pondo de parte a autogestão). Nas reuniões cantávamos entusiasmados a internacional: | 104 Profecia lucana |
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| Qual eco materializado do texto lucano: | |
| que à tardinha, lá para horas de Vésperas, nos Capuchinhos de Bari, meditávamos profundamente, ora em silêncio ora em voz alta e em diálogo – nós os que, sem deixarmos de ser revolucionários, continuávamos coerentemente a ser cristãos e católicos, em comunhão, portanto, com o bispo. | |
| Também nas relações de género, a satânica dicotomia parecia ultrapassada, embora com certa incongruência na primeira Lei da Nacionalidade – que me fez subir indignado as escadas do Governo Provincial e motivou os protestos de certo sector da O. M. M. (Organização da Mulher Moçambicana), que acabou por vencer. | 105 Incoerência de oportunismo político |
| Também no ensino e sobretudo na alfabetização (salvo o problema das línguas), uma vez que não restavam dúvidas de que todos temos muito a aprender e muito a ensinar. | 106 Todos alunos, todos professores |
| Igualmente na política, com o grande movimento do poder popular a partir do local de residência e do local de trabalho, nas três preconizadas fases: democracia nacional (alcançada com a independência), democracia popular (que esperávamos consolidar numa década) e democracia socialista (não reformista, evidentemente). | 107 As três democracias |
| (Por culpa nossa, e também do império único que emergiu após a queda do muro, nem a segunda etapa pudemos prosseguir...) | 108 Derrube que levanta muros mais altos |
| Mas nos lares, embora a igualdade de direitos dos cônjuges já não fosse posta em causa (ao menos teoricamente), ficava o tal reduto colonialista: os criados disfarçados pela denominação de empregados domésticos. | 109 Virose |
| Bem escondido dos grandes sectores da sociedade – igrejas, estado, família alargada, escolas, empresas, casas de divertimento –, lá estava o binómio senhor-servo: quem descobri-lo-ia? Vírus escondido na célula base da sociedade, passando desapercebido como tal – exactamente como era com a maior naturalidade que ainda há um século até missões católicas porventura teriam escravos, ou como há décadas (e agora não?), no mundo "civilizado", se relegava a mulher nos trabalhos domésticos. | 110 Naturalidade "inocente" |
| Às claras, sim, toda a vida seria participativa: não queríamos nós continuar, agora com a ajuda da ciência e da técnica, o tradicional processo do mundo banto de participação e reciprocidade? | 111 Cultura da participação e da reciprocidade |
| Às claras, sim, era preciso aliar trabalho intelectual e manual, sem complexos, para compreensão mútua e benefício de tudo e de todos. | 112 Caminho para a empatia |
| Às claras, nem sequer imaginar a sobrevivência do binómio senhor-servo, qualquer que fosse o disfarce com que se apresentasse. E éramos fecundos em análises perspicazes. | 113 Caminho só parcialmente percorrido |
| Mas no recôndito dos domicílios... como prescindir do pequenino, do moleque, do mainato, do cozinheiro? | 114 caminho para a hipocrisia |
| Se a mulher trabalha fora do lar, e não é justo trabalhar mais outras oito horas dentro, como na Europa meridional ainda acontece, não há outra alternativa, por mais que seja anti-revolucionária. | 115 Desculpa de mau pagador |
| E depois, já que não se pode ser senhor, patrão, na empresa, pelo menos deixem-nos sê-lo em casa. Dividir as tarefas domésticas entre mulher e marido (ainda que não seja mecânica e matematicamente, como advertia Samora Machel) – isso não calha muito bem, pelo menos ao macho. | 116 Escape dos sem convicções |
| Também se foi dizendo que o Partido permitia, que não era exploração, desde que se pagasse bem (nem salários mínimos se mantiveram!), que os serviçais domésticos não produziam mais valia (será mesmo assim, ao menos indirectamente?). | 117 "Aproveitamento" das mínimas frestas |
| E o vírus ficou e bem activo: num mundo global como o nosso, seria possível acabar com as dominações, se em algum recanto elas continuassem? | 118 Vírus político |
| Na tarde eufórica do 17 de Setembro de 1974, fiquei triste, fiquei triste quando percebi que o Comissário Político das Forças Populares de Libertação de Moçambique, recém-chegadas a Quelimane, não se apercebia da desfiadura que haveria de romper a mochila, de que nos fala a literatura tradicional, nem se dava conta das raposinhas a devastar as vinhas já floridas, de que tão poeticamente nos fala o Cântico dos Cânticos (2,15). | 119 Desvio sintomático |
| A tristeza do outro Comandante a vislumbrar o revisionismo era profética... | 120 Previsão sombria |
| ...E eis-nos de novo num país de patrões e servos, de muito ricos e muito pobres, aqueles em quantidade diminuta (os lacaios dos verdadeiros senhores), estes em quantidade crescente (os excluídos) – tudo por obra e graça do império (agora único) que globaliza alguns e exclui muitos, e ridiculariza qualquer utopia ou esperança. | 121 Neocolonialismo: quase recolonização |
| Mas também porque não soubemos levar a sério a descolonização mental, que nos recomendava Samora Machel. Daqueles que o ouviram, quantos se não deixam intimidar pelas armas do império e buscam alternativas? Quantos não desistem do projecto de as riquezas de Moçambique (e são muitas: senão não existiria o saque...) virem a ser participadas, equitativamente, por todos os moçambicanos? | 122 Quota-parte da nossa responsabilidade |
| Vigilância – era uma das palavras de ordem, afinal também de Cristo. Cuidado com as imperceptíveis desfiaduras de qualquer tecido que seja, porque acaba mesmo por rasgar, e cerzir é muito difícil... | 123 Palavra de ordem |
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| No mundo missionário que me foi dado viver durante décadas, constatei, fins dos anos sessenta, princípios dos setenta, como padres e freiras iam participando, indiscriminadamente, de tarefas até aí reservadas apenas a estas ou apenas àqueles. | 124 Atitudes proféticas frustradas? |
| Em meios teórica ou praticamente ateus, presenciei, na intimidade de um lar, como o pai dava banho ao bebé, sem esperar que a mãe chegasse. O primeiro que regressasse do trabalho avançava logo para os serviços domésticos. | 125 Ateus profetas? |
| Actos proféticos infelizmente sem grande continuidade no nosso meio social – nem nos que fazem voto de pobreza (que pobre pode ser aquele ou aquela que se arroga o direito de ter criados?), nem naqueles que se arvoravam em vanguarda (mas em casa nunca se dispensava de ser patrões, e, no trabalho, logo se aproveitaram da mais pequenina abertura do Partido). | 126 Involução só transitória? |
Todos, no entanto, cantávamos (convictos?):ACABA O REINO DOS PATRÕES |
127 Oportunismo? |
| Milhões de moçambicanos, porém, continuam a acreditar que pessoa humana – MUTTHU – só aquela e aquele que se esforça por crescer conjuntamente e não isoladamente: os outros, as outras poderão ser indivíduos (demónios, mais exactamente): nunca pessoas. Os que assim pensam e vivem poderão ser os tais excluídos: mas não se excluem a si mesmos! Uma grande virtude quase lhes é intrínseca: paciência activa (não resignação, ainda que pareça). Mais de cinco milhões exprimem-na pela palavra OVILELELA. Os outros dez milhões (também excluídos) devem exprimir essa virtude noutros termos. Acredito na unidade da cultura banta (e não são usos e costumes diferentes que a vão destruir) e na sua eficiência, uma vez servida pela ciência e pela técnica. Acredito nas sementes do Verbo. |
128 Palavras com eficácia |
| Maputo, 27 de Março de 1999 |
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| Bonifácio Gruveta tinha sido bem claro naquela varanda do prédio Bulha em Quelimane no histórico 17 de Setembro de 1974: – A luta armada terminou. Iniciamos (continuamos) a luta revolucionária. | 129 Nova etapa da luta |
| Esta palavra mobilizou-nos a todos, à excepção, é claro, dos saudosistas. E trabalhámos a sério por alguns anos. Mãos dadas ou punho erguido (sabeis o simbolismo destes gestos?), corríamos para o local de trabalho e para o local de residência, para as sessões de esclarecimento ou para os centros de alfabetização, para os cursos políticos (sabeis o que era política para nós?) ou para o trabalho manual. | 130 Mãos dadas punho erguido |
| Mãos dadas – era a corrente de força pensada e sentida, eficaz e entusiasmante, a circular nas companheiras e companheiros que mais proximamente se aplicavam às tarefas revolucionárias. | 131 O elã |
| Punho erguido – era o sinal de estarmos juntos com todo o povo na luta libertadora. | 132 Gesto motivador |
| Política? Era o sentido de toda a actividade em todas as vertentes. A mesma ciência, a mesma técnica, para nós nunca era neutra (para mim e para muitas e muitos continua a não sê-lo): tanto podia ser revolucionária como reaccionária, consoante visava o bem de todo o povo a começar pelos menos favorecidos ou o dos antigos ou novos privilegiados. | 133 Direcções antagónicas |
| Política da saúde, política da educação, política do trabalho, política da habitação, política das relações internacionais, política financeira... – era o sentido da expressão: a política no comando (posteriormente tão deturpada). | 134 Amplitude da política |
| Era uma luta em todas as frentes, abrangente, profunda: se escolhêssemos bem ou fôssemos bem escolhidos, nenhum de nós podia sentir-se deslocado: eu, por exemplo, realizei-me plenamente na expansão do livro, na orientação dos cursos políticos (com destaque na cultura banta) e na supervisão dos centros de alfabetização. | 135 Viver em pleno |
| A camaradagem que vivemos de 1974 a 1977 foi exemplar: mãos dadas/punho erguido. Não o digo preso ao passado, mas contente com o passado. Hoje vivo outras camaradagens... e o presente é sempre melhor do que o passado, porque aproveita da experiência já vivida, vive novas experiências e está mais perto do futuro. | 136 Saborear o presente |
| Não lamento o que perdi, porque não perdi nada: sempre me enriqueci mais. Sonho com o futuro, porque trabalho com redobrado entusiasmo no presente: gozo o presente, porque, mesmo com as poucas forças que sempre tive (nos meus quinze anos, o médico de família dizia que eu não podia vir para África...), procuro lutar contra o império (do mal: o império é sempre mau). | 137 Vida montante |
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| Neste contexto é evidente que a luta armada era um facto histórico que ninguém queria fosse necessário repetir. Nenhum de nós se atreveria, no entanto, a atirar pedras a quem se lançou nela: quem não compreendia que, de facto, todos os outros recursos pareciam esgotados, que a "legítima" defesa sempre foi apresentada como legítima, que razões sérias levaram os teólogos tradicionais a admitirem a existência de "guerras justas"? | 138 Legitimidade de matar? |
| Se até teoricamente o recurso à luta armada se "justificava", quanto mais, praticamente, a poderiam justificar as minhas camaradas alfabetizandas (e seus maridos e filhos) que sofreram na pele (não é figura de retórica: é anatomicamente real) os efeitos da política colonial do trabalho? E até eu, que só por transfixão os sofri... | 139 Crucificados e transfixados |
| Seria de mau gosto e até ridículo armarmo-nos em moralistas e atirarmos a primeira pedra (por pequenina que fosse) a quem recorreu à contraviolência para acabar com a violência – sobretudo se nunca nos tivéssemos insurgido contra esta. | 140 Moralismo? |
| Mais do que isso e mais do que nem sombra de censura, era até evidente a nossa admiração e o nosso reconhecimento por aquelas e aqueles que tiveram a coragem de se organizar, planear e utilizar os meios de que dispunham para libertar Moçambique do colonialismo. | 141 Moral de situação? |
| E se olharmos não apenas aos fins (os fins não justificam os meios, não é? será?), mas também aos métodos, à maneira de conduzir a guerra, também parece que muito teríamos a admirar, apesar de tudo, comparando-os aos de Kaúlza no terreno, Marcelo ou Salazar, de longe. | 142 Meios adequados aos fins |
| Por tudo isto, também houve um certo entusiasmo pela luta armada que nos conduziu à independência. | 143 Meios inadequados atingem a finalidade? |
| E, salvo a Índia, graças a Gandhi, quem a conseguiu sem pegar em armas letais? 25 de Setembro de 1964 (primeiro tiro disparado no mato) – 7 de Setembro de 1974 (dia da vitória). Ninguém pode levar a mal que se festejasse e se festeje a vitória de um punhado de guerrilheiras e guerrilheiros (apoiadas e apoiados pelo povo) sobre um exército – membro da NATO. | 144 Duradoiramente? |
| O pior, no entanto, foi quando, numa espécie de bajulação (como são apetecíveis as boas graças dos vencedores!), se começou obcecadamente a referir a torto e a direito as proezas da luta armada ou os encantos das zonas libertadas. | 145 Subjectivismo divorciado da objectividade |
| E era mais fácil a todos e nomeadamente aos improvisados professores de política relatar a "história" da luta armada do que o projecto político em curso (que talvez até pouco lhes interessasse ou até lhes desagradasse – tais eram as suas ambições mal disfarçadas). | 146 Desvios "inocentes" |
| Lembro-me das "secas" que lhes dava quando apareciam na minha livraria (que durante alguns anos foi de bom tom frequentar, não obstante a sua conotação cristã). | 147 Tertúlias ou acção pessoal? |
| Era o futuro que se impunha construir e não repisar sempre no passado. Este era apenas como alicerce, como lição e, nos aspectos positivos, como inspiração. | 148 O conteúdo |
| E o local não podia ser melhor: palavra confirmada nos textos clássicos e nos discursos recentes – tudo num grande informalismo e até humor. | 149 ...e o local das "secas" |
| E os livros vendiam-se (também era de bom tom possuir uma boa biblioteca revolucionária), e, juntamente com os clássicos ocidentais e orientais (Mao era predilecto), nunca vendi tantas histórias de Moçambique (na época colonial nem existiam...) e tantas Bíblias (na época colonial poucas se vendiam). | 150 Moda, mas não só |
| Lembro-me também, quando preparávamos, salvo erro, o terceiro curso de alfabetizadores, da preocupação do responsável provincial de Educação em saber como a minha equipa o ia orientar. | 151 Quadros de alfabetização |
| –Camarada Carlos (Silva), queremos que as futuras alfabetizadoras e os futuros alfabetizadores saiam dele, além de perfeitamente à vontade nas técnicas de alfabetização funcional, também muito conscientes e com noções muito claras e distintas, tanto teórica como praticamente, do que seja natureza e cultura, colonialismo e neocolonialismo, independência e internacionalismo, capitalismo e imperialismo, socialismo e comunismo, socialismo reformista e socialismo revolucionário, centralismo burocrático e centralismo democrático, poder popular, emancipação, desenvolvimento e libertação da mulher – tudo isto não a partir de princípios abstractos, mas a partir do nosso dia a dia e do dia a dia do nosso povo. | 152 Seu alfobre |
| –Será disto que, neste momento, o povo precisa, camarada Júlio? Está a chegar a camarada Graça (Simbine). Ela ficará contente? | 153 Dúvida "inocente" |
| –Tenho a certeza e toda a equipa responsável pelo curso também: é exactamente disto que todos, desde a base ao topo, precisamos – respondi convencido e a querer convencer, antes que tivesse de suportar uma "seca" de lutas armadas... e, sobretudo, antes de ter de ouvir ordens a contrariar o nosso plano e a estragar o nosso curso. | 154 Convicção que perdura |
| Carlos Silva cedeu: quem poderia contrariar, naquele contexto histórico, a linha revolucionária, quando bem fundamentada e vivida com entusiasmo? | 155 A força da Verdade e do Entusiasmo |
| Carlos Silva apareceu no curso, integrando-se no círculo. Todos nos dispúnhamos em circunferência, sem destaque para ninguém, "estrutura" que fosse. Mais importante, para nós, era a pessoa que no momento estivesse a falar, e, dispondo-nos assim, todos nos víamos na cara só com um simples movimento de olhos. Também interveio, mas nada teve a criticar... | 156 Geometria eficaz |
| Eu dava-me muito bem com as minhas camaradas, mas não digo que uma ou outra não resvalasse na lisonja... aos comandantes, e na mistificação da luta armada. Uma até quase me irritava com as suas intervenções visivelmente oportunísticas, que às vezes até desviavam para a direita o rumo dos acontecimentos. (Só não revelo o nome, porque ela, agora, embora já muito longe da revolução, é de uma delicadeza inexcedível para comigo: agora sou eu o oportunista...) | 157 Oportunismo irritante |
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| Trabalhando na base (era um simples chefe de quarteirão) e sendo o poder popular ainda muito insípido, nada pudemos contra aquilo que reputo como um dos maiores desgostos a quebrar a euforia daqueles anos: os treinos político-militares (políticos, muito bem, militares, muito mal), que se iam estendendo a locais de trabalho, de residência e não sei se de estudo; e, logo no dia da independência, a arma abraçada à enxada, na bandeira nacional. (Não é bem a cruz e a espada... mas até podia lembrar.) | 158 Símbolo letal |
| E, simultaneamente, um fanatismo pelos símbolos da pátria, que levava a parar o trânsito nas horas do içar ou arrear da bandeira, e, pior ainda, ia levando a respeitar mais o símbolo do que o simbolizado: mais o pano da bandeira do que o povo e as pessoas que o constituíam e de que a bandeira era o símbolo. | 159 Fanatismo "religioso" |
| Uma vez estava em Lichinga hospedado em casa do Director de Finanças, Jorge Viegas, poeta ainda hoje muito apreciado em Moçambique, embora tenha preferido ir viver para Portugal. Estávamos, salvo erro, em Setembro de 1977, e eu vinha da Beira, onde participara na I Assembleia Nacional de Pastoral, e aproveitava o facto de me ter ausentado de Quelimane, para pisar a única província que ainda desconhecia: o Niassa. | 160 Hospitalidade de um poeta |
| Tinha-me levantado cedo, tinha colhido e comido uns bons pêssegos do quintal do meu hospedeiro e vim para a rua ver o nascer do sol. Alguns passos andados, e deparo com uma miudinha, talvez com menos de dez anos, perfilada e também com os olhos voltados para o Nascente. Emocionado (afinal não era eu o único a extasiar-me perante aquele espectáculo...), esbocei uma tentativa de entrar em comunicação com ela. | 161 O fascínio do belo |
| Aquele nascer do sol com a Xanda, na praia do Xai-Xai, meia década antes, não tinha sido muito mais maravilhoso do que se o tivesse gozado sozinho? | 162 A Xanda numa madrugada |
| Mas a pequena estava mesmo perfilada, e esboçou-me uma ordem de silêncio. Não era, porém, por causa do nascer do sol, não: lá longe, talvez a mais de cem metros de distância, percebia-se uma bandeira a ser içada... | 162 Unidos pelo sol (ou pela bandeira?) |
| Isto, no entanto, seria o menos. Até podemos captar um certo maravilhoso nesta "religiosidade". O pior era a violência (preconizando a contraviolência, muitas vezes, cai-se exactamente na violência que queríamos combater...): a violência para quem não parasse o carro e descesse dele e se perfilasse. E também a arma que fizeram questão em colocar juntamente com os outros símbolos, esses, sim, cheios de beleza e significado bem positivo: livro, enxada, produtos da terra, roda dentada, mapa, oceano, sol, estrela, cores. | 163 Infiltrações subtis ou descaradas? |
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| Mais tarde, em 25 de Setembro de 1980, novo choque: a lei n.º 5/80 estabelecia o sistema de patentes militares. O exército seria estruturado como todos os outros dos países que usam da violência não como último recurso e em legítima defesa, mas sempre que lhes interesse usar dela. | 164 Mística desfeita |
| Definitivamente se esvaía a mística do guerrilheiro: a aliança com o povo, o trabalho com o povo, a utilização da arma só e exclusivamente quando se impusesse para defender esse povo. | 165 Aliança desfeita |
| Eu próprio – por mais não violento activo que quisesse ser – experimentei a sensação de me sentir protegido, ao fim de um quarto de século em que (por transfixão que fosse, mas não só) havia sentido o peso da ocupação, e o alívio à medida da retirada do exército português (nem todos estavam com o 25 de Abril, e já tínhamos a experiência do 7 de Setembro e do 21 de Novembro de 74). | 166 Tentação de um certo conforto |
| Sabeis o que é poder vender às claras os livros e revistas que até aí só o podia às escondidas e com todas as precauções para não tocar nas malhas que se iam apertando (todas as semanas, pelo menos uma vez, visitas indesejáveis...)? | 167 Sensação de liberdade |
| Sabeis o que é finalmente poder falar com os portugueses e dizer tudo quanto pensava, quando ainda há pouco, se resvalava nem que fosse apenas em exaltar valores da cultura banta, logo eu ou o meu bispo era incomodado pelo meu "desvario"? | 168 Ao fim de um quarto de século |
| Não é que tivesse alguma vez perdido a confiança naquele que sempre me acompanhou nos momentos mais aflitivos, mas era confortável – confesso – sentir-me protegido por guerrilheiros e guerrilheiras que nada mais pretendiam de mim do que continuasse a luta revolucionária (para bem do povo e, portanto, para meu próprio bem). | 169 A força eficaz e a força ilusória |
| Agora, com a lei 5/80 toda a camaradagem se esvaía. | 170 O rasgão acentua-se |
| É certo que, com o recrutamento de novos elementos das F.P.L.M., as coisas já se tinham alterado muito: o comportamento dos formados na Argélia e na Tanzania e que haviam feito a guerrilha era muito diferente dos recrutados após a independência – sem quaisquer ideais revolucionários e, muito menos, prática. Atrevêssemo-nos nós a qualquer crítica ou sequer observação (que, aliás, era frequente fazermos com simplicidade até a comandantes)... | 171 Os infiltrados |
| Os princípios, no entanto, mantinham-se os mesmos, e sempre venceríamos, se recorrêssemos. | 172 Princípios, mas pouco actuantes |
| Agora, porém, já não eram guerrilheiros, mas exército regular, e todos percebemos o que isso significa. | 173 Consagração da violência |
| Nesse dia, em que me chegou às mãos o "Boletim da República" n.º 38 – Suplemento de quarta-feira, 25 de Setembro de 198O, pág. 140 (1-2) – I Série, lembrei-me, quase com saudades, daquela noite em que ouvi o jovem comandante João Honwana a explicar a jovens oficiais do exército português que nunca na República Popular de Moçambique se haveria de estabelecer o sistema de patentes. | 174 Serás hoje fiel a essa convicção? |
| Foi logo na primeira ou segunda noite (17 ou 18 de Setembro de 74) em que parte do contingente das Forças Populares se hospedara no convento dos Capuchinhos de Bari, porque não cabiam todos no Quartel de Quelimane. | 175 Ainda sois assim hospitaleiros? |
| Era necessário estabelecer a segurança do convento, que passaria a ser alvo dos "dragões da morte" (como depois pude comprovar por uma carta assinada e dirigida ao Prosperino, na altura superior dos capuchinhos de Bari). | 176 Segurança militar |
| Eu, na minha ingenuidade, pensava que tal competia às próprias Forças Populares, e via com desconfiança a presença de soldados do exército português. | 178 A minha ingenuidade |
| Mas João Honwana logo me fez compreender que era às Forças Armadas que, por enquanto, competia tal segurança: até porque qualquer problema que surgisse ficaria da responsabilidade delas. | 179 Pragmatismo habilidoso |
| E lá fomos os dois, depois do jantar, numa visita para mim inédita. As portas do quartel logo se abriram e os oficiais acolheram-nos com simpatia. E aí se desenrolou a conversa, logo após ter sido resolvido o problema da segurança. | 180 Como entrei num quartel |
| E eles diziam que, mais dia menos dia, viríamos a cair nas patentes, e João insistia em que não: eram duas ideologias antagónicas. | 181 Duas ideologias: por quanto tempo? |
| Seis anos depois, constato que afinal os dois jovens oficiais haviam profetizado a nossa queda. | 182 Profecia da desgraça |
| E uma boa década depois, constato como, com guerrilheiros e guerrilheiras, tínhamos vencido uma potência integrada na NATO, e, com um exército regular, tínhamos saído vencidos a ponto de termos de chamar PAZ à desistência forçada de um projecto libertador e de assistir ao consequente espectáculo de um punhado de moçambicanos a enriquecer desmedidamente (embora só com migalhas dos estrangeiros) e uma esmagadora maioria a empobrecer ainda mais desmedidamente. | 183 Vitória mal aproveitada derrota mal contornada |
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| Naquele Setembro de 74, tudo era claro: o próprio povo conotava reacção com guerra e revolução com paz. As próprias crianças. | 184 Ao princípio tudo era claro |
| O caminho era único: alfabetização para os oprimidos, não violência activa face aos opressores. É verdade que nunca se chegou à perfeição de renunciar à contraviolência, mas esta seria um ultimíssimo recurso cada vez mais indesejável. | 185 Consciencialização e libertação |
| E, se não era para esquecer, o fenómeno guerra também não era para repetir. Sem condenar o recurso a ela em 64, era preciso ter consciência de que ela pode ser eficiente a curto prazo, mas logo a recuperação imperialista não se fará esperar. E isto por três motivos: primeiro, porque a tendência dos oprimidos, quando vitoriosos através das armas letais, é a de se tornarem opressores – um conselho do povo português reza assim: "não sirvas a quem serviu nem peças a quem pediu" –; segundo, porque utilizarmos as mesmas armas dos opressores é o primeiro passo para os imitarmos, pormo-nos ao mesmo nível, tornarmo-nos como eles; terceiro, porque aos ricos nunca o dinheiro lhes faltará, e poderão sempre dizer a última palavra no foro bélico. | 186 Caminho não paradigmático |
| Temos de renunciar a uma eficiência a curto prazo e optar pela eficiência a médio e longo prazo. Talvez fosse para recordar aqui a paciência como virtude revolucionária de que nos falava Samora e o termo macua OVILELA ou talvez ainda melhor OVILELELA tantas vezes repetido e sobretudo vivido pelo povo ao norte do Zambeze. Mesmo quando se falava da necessidade de se adiar a independência, não era no sentido de continuarmos a guerrilha, mas no sentido de dar tempo a uma maior consciencialização da parte do povo moçambicano que sofria as consequências do "vírus" da assimilação (dos vocacionados à burguesia). | 187 O tempo desfaz tudo quanto não ajudou a fazer |
| Muitas vezes se me punha o problema: será que vingará a revolução moçambicana, apesar de ter surgido de uma guerra? Será que os agora vencidos não voltarão em força? Será que os agora libertadores não se aliarão aos opressores, seja a que pretexto for? | 188 Abanão nas convicções |
| É claro que o pacifismo, que nos reduz ao reino vegetal, é bem pior do que a contraviolência, que pelo menos nos mantém no reino animal. Mas, embora seja muito diferente da violência, a contraviolência ainda não nos eleva a uma verdadeira humanidade – só atingível pela não violência activa. | 189 As três vias |
| Por isso, durante a época colonial, não podiam vender-se livros de Ghandi, Luther King, Danilo Dolce, Paulo Freire, Helder da Câmara e tantos outros, a não ser clandestinamente, e agora (a partir do 17 de Setembro de 1974) já os podia vender às claras e sem o menor perigo. | 190 Via paradigmática |
| Tudo indicava que era esse o caminho de opção desde a base ao topo – aquela, por predisposição da cultura banta, este, por conclusões científicas. | 191 Certeza duplamente confirmada |
| Muito interessante um episódio ocorrido em Quelimane ainda antes de terminar o mês de Setembro de 74. | 192 Processos arquivados |
| Logo após o 25 de Abril – que foi bem claro tratar-se da libertação do povo português, mas não do povo moçambicano (embora os próprios ditos democratas tentassem tornear o problema) – não faltou quem começasse a instaurar processos contra os criminosos que não arredavam de Moçambique nem davam mostras de sincera conversão. Não nos animava qualquer espírito de vingança, mas exactamente protegê-los contra uma sempre possível justiça pelas próprias mãos – a chamada, aí em Portugal, justiça de Fafe. | 193 Contra a justiça de Fafe |
| De facto, podiam ouvir-se, por vezes, ânimos exaltados: –Ela pensa que vai embarcar de avião? Eu não a deixarei sair do aeroporto. Ela há-de pagá-las aqui: não lá na Europa. (Era um aluno a referir-se a uma professora que, além da sua conotação de racista, até chegaria a ter dito que queimaria a "sua" casa antes de embarcar...) |
194 Primeiros escapes |
| Fazendo sempre apelo à cultura herdada dos "makolo" (antepassados) e às conquistas modernas, intensificámos reuniões para discutir a melhor maneira de acabarmos com as injustiças e libertarmo-nos conjuntamente. | 195 Justiça nos fins e nos meios |
| Sempre distanciados do pacifismo cobarde e da contraviolência temerária, íamo-nos enfarinhando nos processos da não violência activa. | 196 A única via eficaz |
| Um dos nossos grupos, entretanto, não se cansava, dia e noite, de documentar o melhor possível os processos dos criminosos que nunca os tribunais coloniais teriam aceitado. | 197 Livro negro? |
| Mal chegaram as F.P.L.M., numa reunião a que não assisti (não sei se alguém teria levantado a hipótese de eu pertencer à CIA – táctica fácil de afastar uma pessoa), iam ser entregues esses processos para que justiça fosse feita, mas legalmente e não pelas mãos das vítimas. | 198 Ultrapassagem magnânima |
| Só que, por um lado, a alegria do povo era tanta que não dava lugar a ressentimentos (admirável povo este!), e a clarividência dos vencedores era tal que não estavam interessados em mandar ninguém responder em tribunal. | 199 Felicidade? Só se partilhada por bons e maus |
| Reconhecidos, agradeceram o trabalho, que não teria sido inútil: a história tudo registará e nada ficará esquecido. Mas tudo quanto se passou até os Acordos de Lusaca, em 7/9/1974, estava ultrapassado: os criminosos poderiam até, e puderam, permanecer em Moçambique. | 200 Não esquecer, mas perdoar |
| Mas tudo que fizessem ou tenham feito depois da assinatura desses Acordos, então o caso seria ou será diferente. | 201 Marco de referência |
| E sou testemunha em como ofendidos cruzavam na rua com os próprios ofensores sem que qualquer gesto ou sequer sentimento de rancor se esboçasse. A felicidade era demais para se perder tempo com mesquinhices. | 202 Reconciliação sem espectáculo |
| É também neste contexto que, em breve, algumas portuguesas e alguns portugueses, num comício, foram apresentados ao povo, para que este as e os ajudasse à recuperação... porque se haviam manifestado contra as decisões do próprio governo de Lisboa, que havia reconhecido o direito à independência de Moçambique. | 203 Recuperáveis? |
| Era depois do 7 de Setembro, mas, apesar disso, além dessa humilhação, nada mais lhes aconteceu, deixando-as e deixando-os imediatamente em liberdade. | 204 Como usaram dessa liberdade? |
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| Neste contexto, mesmo sem condenar a luta armada 64-74, havia que tirar grandes lições dela no sentido de jamais voltar a ela, nem mesmo como último recurso – na certeza de que um povo consciente tem armas muito mais eficazes, se não a curto prazo, pelo menos a médio e longo prazo, na certeza de que as armas letais de eficácia a curto prazo produzem efeitos de pouca duração, ao passo que as armas da não violência produzem efeitos de longa duração. | 205 Aprendemos a lição? |
| Mistificar a luta armada foi mais um rasgão no tecido revolucionário – difícil agora de recompor. | 206 O grande rasgão |
| E a mistificação das zonas libertadas resultou num ridículo semelhante ao dos religiosos que quiseram fazer do éden bíblico um facto histórico dos primórdios, quando na verdade é um projecto para construir e gozar no futuro, embora a partir do presente – a utopia que temos de começar a tornar realidade desde aqui e desde agora, já, sem perda de tempo. |
207 Dois ridículos por falta de objectividade |
| Rovuma, "Bula-bula", Sábado, 14 de Abril de 1999. |
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| Mistificação e mitificação da luta armada logo a partir dos símbolos nacionais, apego ao binómio senhor-servo ainda que fosse no recôndito do lar: ficariam por aí os desvios à direita, os rasgões no tecido revolucionário, as raposinhas a devastar a vinha? | 208 Multiplicação negativa |
| BOLETIM DA REPÚBLICA / PUBLICAÇÃO OFICIAL DA REPÚBLICA POPULAR DE MOÇAMBIQUE/ Sábado, 30 de Agosto de 1975 / I SÉRIE – Número 29 / SUMÁRIO / (...) Conselho de Ministros: / Decreto n.º 10/75: / Fixa as remunerações mensais a que têm direito o Presidente da República, os membros do Conselho de Ministros e os responsáveis do Governo e das Forças Populares de Libertação de Moçambique. (...) | 209 Dinheiro no topo |
| Embora já com estatuto de Estado no tempo da dominação portuguesa, Moçambique era uma simples província, com um governador geral, um secretário geral e secretários provinciais para as diversas áreas da governação, mas nunca tivera ministros antes do dia da vitória, e muito menos presidente. Impunha-se, evidentemente, legislar sobre os vencimentos de quem desempenhasse esses cargos que surgiam pela primeira vez neste emergente país. | 210 Novidade na governação |
| Num contexto revolucionário, porém, torna-se chocante começar pelo topo, e com verbas, talvez bastante comedidas em qualquer país do primeiro mundo ou de países governados por assimilados, mas, sem dúvida, bastante escandalosas em plena luta contra a exploração do homem pelo homem. | 211 Servir na activa ou na passiva? |
| Não poderiam os ministros contentar-se com os vencimentos daqueles que integraram o Governo Provisório ou mesmo o Governo de Transição (que já não era nada pouco) e o presidente, em vez de se abarbatar com o dobro de um vice-ministro, não poderia contentar-se com um pouco mais do que um ministro, apenas para salvaguardar a hierarquia de que era tão cioso? | 212 Exploração à espreita? |
| Nunca defenderamos o igualitarismo absoluto, e até o condenávamos severamente como grave desvio de esquerda. Mas estávamos bem cientes também de que camarada a ganhar mais do que o rendimento "per capita", sendo este já tão baixo, era camarada a prejudicar o seu próprio camarada: o leque de remunerações é sempre a pedra de toque da credibilidade de uma revolução socialista. | 213 Amigos, amigos, negócios à parte |
| Não sei se será exacta uma divisão linear das reacções que este Decreto provocou entre nós; mas pareceu-me que os sinceros chocaram-se verdadeiramente, enquanto os oportunistas até se alegraram e defendiam, porque isto das vanguardas serem as primeiras nos sacrifícios e as últimas nos benefícios... nunca lhes deve ter caído muito bem. | 214 Revolução às avessas? |
| E devo dizer que na altura nem era preciso ter muito dinheiro: basta saber-se que os nossos filhos tinham ensino gratuito desde o primário até o secundário, o médio e o superior, com viagens e lares, consoante os casos. | 215 Educação sem dinheiro |
| E as consultas médicas custavam o equivalente a menos de meio dólar americano: sou testemunha de como pobres, que ficariam o resto da vida cegos, recuperavam a vista após intervenção cirúrgica, pagando apenas aquela ridicularia. | 216 Saúde sem dinheiro |
| Recordo com agrado um jovem que frequentava a minha livraria: era baixinho e cego de um olho, muito interessado por leituras e, segundo as suas poucas posses, lá ia comprando este ou aquele livro. Depois deixei de o ver: talvez eu próprio tenha viajado, mas ele também deve ter estado bastante tempo sem aparecer na livraria. Quase me esquecera dele: pouco fisionomista que sou, como fixar tantos clientes que passei a ter após a independência? | 217 Os cegos... |
| Um dia estava sozinho, e entra um cliente de baixa estatura e bastante jovem: dirige-se às estantes e percorre-as lentamente, pegando num ou outro livro, consultando e recolocando tudo no sítio. Parecia mesmo aquele simpático rapazinho: o olhar, porém, era diferente (não tinha aquele jeito característico de quem apenas vê com um olho). Ia interrogá-lo, mas parece-me que foi ele mesmo que veio ao encontro das minhas cogitações. Era ele próprio: um grande especialista que veio da Índia ajudar-nos havia-o curado, hospitalizando-o e submetendo-o a uma intervenção cirúrgica. A ele e a muitos outros. A Saúde havia sido nacionalizada, talvez com o lado antipático de todas as nacionalizações, mas para logo ser socializada, com todo o seu lado simpático bem patente. | 218 ...vêem |
| Lembro-me de um outro caso, que me atingia pessoalmente. O director de uma escola média de agronomia e silvicultura pedia aos pais uma contribuição pecuniária. A esse propósito, escrevi nessa altura (7 de Junho de 1979): "Penso que o estudante, como jovem trabalhador que é, merece um vencimento com o qual possa viver. Na fase actual, porém, e como medida de emergência, talvez o exposto na circular de 18 de Maio seja, de facto, o mais eficaz. E o critério das mensalidades estabelecido é muito justo. Penso, no entanto, que, repito, só como medida de emergência e, portanto, transitória, isso se explica. | 219 Estudante merece salário |
| "O encargo da formação dos estudantes cabe a todos os cidadãos na proporção não dos seus filhos (antes pelo contrário), mas na proporção dos seus rendimentos. Se, portanto, o que nós pagamos de impostos não chega, que nos sejam aumentados esses impostos até o limite necessário. Cada um de nós é responsável pelas despesas não dos respectivos filhos, mas pelas despesas dos filhos de todo o Povo. É em função dele que se escolhem os cursos e tudo se planeia, não em função do interesse de cada família." | 220 Finalidade dos impostos |
| O aluno em causa (e dos outros podia dizer-se o mesmo) estava ali, naquela escola nos planaltos de Manica, não por conveniências ou planos familiares, mas por conveniência do Povo moçambicano e segundo planos nacionais. | 221 Vocação e plano |
| Falar assim só era possível numa revolução séria, e, na verdade, milhares de moçambicanos que nunca teriam tido acesso aos estudos secundários, médios e superiores conseguiram formar-se e converter-se nos melhores quadros do nosso país. E isto sem qualquer discriminação étnica, geográfica, classista, religiosa ou de sexo. | 222 O que ficou de mais positivo |
| Sol de pouca dura: em breve regressaríamos ao regime de propinas e ao remedeio das bolsas: já não era um direito, mas uma concessão. Revolução sem revolucionários não era possível, e estes eram poucos: os infiltrados em breve os neutralizaram, isto mesmo sem falar em causas exteriores (difíceis de delimitar). O avanço inicial, no entanto, foi inestimável. E perdura, apesar de tudo. | 223 ...a pesar da reacção emergente |
| Isto só para dizer que, nos primeiros anos, nos quais nem se falava no FMI a não ser para lamentar os estragos que ia fazendo por todo o terceiro mundo que lhes caía na alçada, e nos quais os seus emissários ainda não eram notícia a não ser para ocupar uma ou duas linhas da imprensa (só os muito atentos cogitavam: boa coisa não andam por cá a fazer!), nos primeiros anos, dizíamos, nem era preciso muito dinheiro para viver, muito menos os do topo, que tinham tudo, quase sem despender nada dos bens pessoais. | 224 FMI à espreita |
| De um director provincial, que, para suprir a falta de quadros, interrompera o curso de agronomia (quase no final), lembro-me muito bem de me ter dito não precisar de vencimento tão alto. Era casado, tinha um filho, e estava habituado a viver bem, mas tinha consciência revolucionária: percebia que o leque salarial não podia ser muito largo e sabia da situação dos camponeses. | 225 Sinceridade inicial |
| A justiça social era qualquer coisa que nos parecia intrínseca. E a renúncia e disponibilidade que se vivia no meio revolucionário não sei se poderíamos encontrar, com a mesma alegria e entusiasmo, no meio dos religiosos e religiosas. Dava-se mais do que aquilo que nos era pedido, queríamos antecipar os tempos: ser verdadeira vanguarda, nos antípodas do elitismo. O "mundo melhor" de Lombardi e Vieira Pinto, dos anos sessenta, agora vivido até por ateus ou promovido até por estes? | 226 Secularização do "mundo melhor" |
| E isto nos limites do bom senso. Na segunda metade de Setembro e primeira de Outubro de 74, jantava quase sempre com as guerrilheiras e guerrilheiros hospedados no convento dos capuchinhos de Bari. No fim, habitualmente, havia um relato dos acontecimentos principais e um debate em que todos participávamos. (Era este serão que fazia relembrar ao Stefano Cinti os primórdios do franciscanismo.) | 227 À mesa com guerrilheiras e guerrilheiros |
| Ali não podia haver entusiasmos bacocos, esquerdismos ou ressentimentos: era o realismo que imperava (em vez de realismo poderia dizer materialismo, se me não arriscasse a ser mal interpretado). E lembro-me bem do cuidado em nunca prejudicar as grandes companhias, para que a produção nunca fosse afectada, mas beneficiada com um trabalho mais consciente, agora que a independência estava à vista. | 228 Materialismo no sentido de realismo |
| Certos elementos da base, no entanto, como ganhavam excessivamente pouco, foram aumentados desmedidamente em relação ao que estavam habituados. Um conheci eu: ganhando quinhentos escudos, passou logo para quatro mil, e, pior ainda, de professor das primeiras classes e bom intérprete, dá um pulo para responsabilidades empresariais... E aquele que ainda há poucos meses atrás resistiu às tentações pecuniárias da PIDE, tendo-me, assim, salvo – a mim e a muitos outros (eu dirigia na altura um curso subversivo), cai nesta triste figura. | 229 Dinheiro que mata o revolucionário |
| Um aumento gradual teria sido muito mais pedagógico. Assim, embora soubesse repetir o que ouvia e fazer mecanicamente o que lhe mandavam, nunca se formou como revolucionário: pelo contrário criou um espírito elitista e oportunista nele e na família. Por outro lado, muitos aumentos, desmedidos como este, espalhados por todo o país, é evidente que contribuíram para o surto inflacionário. | 230 ...e também a revolução |
| Eu costumava dizer, nesses tempos, que a Frelimo demonstrava uma grande capacidade para estruturar, mas uma incapacidade a toda a prova em escolher quadros, ou, se escolhia bem, em formá-los. (É claro que eu gostaria que todos os quadros passassem pelos cursos de alfabetização funcional que dirigia com a minha equipa... – por isso, sou suspeito!) | 231 Ciência esquecida: a psicologia |
| Evidentemente que Samora nunca se deixou corromper pelo dinheiro. E o pior já não é quando os chefes se contentam com os vencimentos, por maiores que sejam... As formas de acumulação de riqueza (embora muitas vezes começando por aí) passaram a ser muito outras: até lhes permitiriam renunciar a esses vencimentos, insinuando-se como altruístas. | 232 Impoluto perante o dinheiro, apesar do evidente autoritarismo |
| Quando me referi a termo-nos escandalizado com o decreto das remunerações, foi porque, de facto, na altura, isso já aparecia como um estorvo no avanço revolucionário, e nem admitíamos que viéssemos a chegar ao que chegámos após a morte do nosso primeiro presidente, mas já incubado antes dela. (As tais linhas quase imperceptíveis passaram, depois, a parangonas...) | 233 Por isso nos descuidamos |
| O tal leque salarial, que a muitos até poderia parecer bem apertado, foi suficientemente largo para atiçar os apetites. Se o sector privado é de continuar, se é preciso incentivar a economia, se os outros cidadãos podem ser empresários, por que os membros do Partido o não hão-de poder ser? (E, de facto, se podiam ser patrões no local de residência, por que não o poderiam no local de trabalho?) | 234 do vírus, que não dorme |
| E, muito tímida e discretamente, o Relatório do Comité Central ao V Congresso, em meados de 1989, vai preparando o terreno: "É por isso de ponderar sobre a possibilidade de admitir, como membros do Partido, proprietários que sejam de conduta exemplar e respeitados pela comunidade, uma vez verificada a sua identificação com os objectivos do Partido expressos no seu Programa e Estatuto." (Final da pág. 53.) | 235 ...e até se institucionaliza |
| Pequenina e (quem sabe se ardilosamente) imprecisa abertura: mais que suficiente, no entanto, para todos quantos se sentiam comprimidos se lançarem nela e a alargarem à medida das suas ambições. | 236 "inocentemente" |
| Talvez se pensasse inicialmente em pequenos empresários: os proprietários de um moinho lá na terreola ou de algumas cabeças de gado, ou de quaisquer outros bens de produção de diminutas proporções. | 237 Revisionismo, primeiro, tímido |
| Enquanto, porém, no caso dos polígamos e dos religiosos talvez se tratasse de um reajustamento à linha correcta, aqui era demais evidente tratar-se de um desvio revisionista (lembrais-vos da triste "profecia" daquele guerrilheiro com a cabeça encostada na porta do convento capuchinho, numa tarde da segunda metade de Setembro de 74?). | 238 e a coberto de justas correcções |
| E, num ápice, surgem grandes senhores – com vocação frustrada (porque não passam de lacaios) a senhores do mundo... | 239 depois, descarado |
| Não estou a falar das causas externas, mas das internas: não estou a falar da derrota que tivemos de assinar em Roma para evitar outro possível milhão de mortos, mas da derrota nas nossas fileiras. (A que ficou reduzida a vitória assinada em Lusaca em 7 de Setembro de 1974?) | 240 Foro interno |
| Nem sequer falo no facto do Partido ter virado de comunista em socialista (e de que socialismo! – não revolucionário, de certeza): acredito que naquela conjuntura não houvesse outra saída. | 241 Recuo táctico? |
| De momento, é claro, porque posteriormente já se poderia ter desmembrado em dois ou três, para que cada membro pudesse ser consequente com as próprias ideologias (de direita, centro ou esquerda). Sérgio Vieira, primeiro, e Machado da Graça, bastante depois, penso que preconizaram isso mesmo. | 242 Coerência |
| Falo sim daqueles senhores "camaradas" com tantas capacidades empresariais não as terem aproveitado para desenvolver o sector cooperativo. (Na Resolução Final da Reunião Nacional da Política Económica do Partido realizada no Maputo de 31 de Agosto a 5 de Setembro de l987, lê-se: todos os membros do Partido têm que ser cooperativistas, para que possam mostrar aos camponeses, na prática, as vantagens da cooperativa.) Ou noutras formas de autogestão ou de qualquer maneira participativas, consoante económica e socialmente fosse mais indicado. | 243 Incoerência ou camaleonismo? |
| É claro que num projecto capitalista como nos foi imposto pela globalização (=império) não se pode viver como num projecto socialista pelo qual havíamos optado. Ao fazermos apelo à coerência e sinceridade, não preconizamos a ingenuidade ou a parvoíce. As privatizações alteram, forçosamente, a táctica que nos há-de conduzir a médio ou mesmo a longo prazo (se tal tiver que ser) à estratégia traçada. | 244 Mudança de táctica: não de estratégia |
| A esta é que não podemos renunciar: seria um suicídio – o suicídio cultural (deixaríamos de ser atthu para passarmos a ser akwiri, que nem vou traduzir, por vergonha). O império de Roma (e ele continua com outros nomes, e todos sabemos muito bem os nomes que tem tido) estruturava-se e estrutura-se fundamentalmente no binómio senhor-servo. | 245 Suicídio cultural |
| Para aqueles que nasceram ou renascemos no mundo e na cultura banta a visão cósmica é toda outra. Pour la pensée africaine le couple Maître-Esclave n’est pas "struturel" – afirma E. Mveng em L’ART D’AFRIQUE NOIRE / Liturgie cosmique et langage religieux, a páginas 121 (Maison Mame ). | 246 Perspectiva banta |
| Não vamos tolerar (a não ser por táctica, a ver se contornamos a razia da globalização) que, de cultura tão rica, só guardemos os elementos transitórios (como hábitos, usos ou até costumes) e ainda por cima o que há de negativo em feiticismos e regulados. | 247 Trocar o essencial pelo transitório? |
| Nem vamos pegar e apregoar valores isolados, por muito bons que sejam ou se afigurem, como família alargada, respeito pelos mais velhos, amor à própria terra, obediência à autoridade, solidariedade e tantos outros, porque tudo isso pode e é frequentemente instrumentalizado, se fora do contexto evolutivo e revolucionário da essencialidade da vida forte, fecunda, fraterna – essa, sim, em dimensões cósmicas. | 248 Ou o fundamental pelo formal? |
| Ekumi – dizem cerca de cinco milhões de moçambicanos com uma emoção só própria de um povo para o qual palavra e realidade são uma e a mesma coisa.(Egumi – diz uma minoria desse mesmo povo, mas num sentido exactamente igual.) | 249 Eficácia da palavra |
| Dinheiro, sim, mas só na medida e na maneira de servir a vida e não de fabricar uma minoria de senhores do mundo e, consequentemente, uma maioria de empobrecidos e excluídos. | 250 Ser e Ter |
| Dinheiro é pedra de toque para aferir, por um lado, o valor que se atribui a uma coisa, a um serviço ou a uma pessoa, mas, por outro, e sobretudo, para aferir o espírito revolucionário de cada um, e, por maioria de razão, o espírito evangélico dos cristãos. | 251 Pedra de toque |
| E, perante o Decreto 10/75, quem vai condenar os que desanimaram com o 4/80 também do Conselho de Ministros, cinco anos depois? Ou quem vai condenar os católicos por se lançarem também na busca desenfreada de bens materiais, se a própria hierarquia os precede, com os mais diversos pretextos, não, porém, com autêntica argumentação evangélica? | 252 Quem atira a primeira pedra? |
| Não é, no entanto, o exemplo dos topos (palavrão nem revolucionário nem evangélico) ou mesmo dos companheiros que nos pode desculpar de não prosseguir a luta com a maior coerência possível, mudando todos os dias de táctica, se, perante as novas circunstâncias, for preciso, com todas as forças que nos restarem e que quotidianamente readquirirmos, e ainda que nos queiram ridicularizar por contemplarmos os lírios do campo, como Lucas (12, 27) nos sugere, ou por confiarmos na força extraída das nossas fraquezas, como Paulo nos ensina (1Cor 1,24-26; 4,9-13; 15,30-31; 2Cor 1,3-10; 4,7-12; 6,4-10; 7, 5; 11,23-32; 12,7-10; Col 1,24; 1Tes 2,2 e 9; 2Tim 1,8; 2,9-10; 3,11-12; Rom 8,35-39; Gál 6,14 e 17; Fil 2,25-27; 4,11-13). | 253 Os lírios do campo |
| Os lírios lucanos evoca-me um quadro de Fugel de que a Maria José (a fundadora do Lar Feminino, de Quelimane) gostava muito e que nos abria horizontes talvez até aí mal sonhados... e não sei até que ponto nos transformou e até que paragens nos conduziu. | 254 Pintor alemão convertido |
| E lembro-me da interiorização que a Rosa Maria conseguia das palavras de João XXXIII a explicar-nos a justiça social; e partilhava comigo, nos breves minutos que permanecesse na livraria que o bispo me confiara desde 1 de Julho de 1956 até a independência. Foram de entusiasmo e transformação interior aqueles anos de 1958 a 1963, em que tínhamos João como sucessor de Pedro. | 255 Fim do constantinianismo? |
| De facto, a noção de justiça social ainda hoje ou se confunde com as de justiça comutativa, justiça legal e justiça distributiva, ou se dilui em noções tão vagas que ninguém se sente obrigado a ela. | 256 Justiça diluída |
| Quanto à primeira, se formos honestos, facilmente compreenderemos que entre o que se paga e o que se recebe (coisas ou serviços) tem de haver equiparação (para ficarmos quites). É a justiça no sentido mais estrito. | 257 Os pesos da balança |
| Quanto à segunda, quem não compreende que temos de contribuir proporcionalmente para o estado (quer nas formas centralizadas quer nas descentralizadas) para que ele possa zelar pelo bem comum? | 258 Impostos e serviço civil (em substituição do militar) |
| E quanto à terceira, todos entendemos – e queremos (assim também quisessem os governantes) – que o estado e as autarquias não podem privilegiar nem marginalizar ninguém dos bens e serviços que constitucionalmente lhe forem confiados. | 259 Bem comum |
| Mas, quanto à justiça social, que nos levaria a entregar (na verdade, restituir) o (ou do) nosso supérfluo àqueles que nem o mínimo vital têm, todos dizemos não possuirmos qualquer supérfluo, além, talvez, de algumas quinquilharias que até nos estorvam e que, a custo, e se calhar, ou quando calhar, daremos a uns discípulos de Emaús, a umas Conferências de São Vicente de Paula, ou simplesmente deitaremos no lixo. | 260 A justiça incómoda... até para os bons |
| Por muito rico que alguém seja, nunca se sentirá possuidor de supérfluo, quer pelas ambições desmedidas, quer pelos investimentos com que sonhe, quer pela insegurança do sistema.> | 261 A consciência "impossível" |
| E o mínimo vital, quando se trata dos outros, reduz-se a tão pouco que nem sei se, vendo-os a dormir ao relento ou a morrer de fome, nos convenceríamos a restituir o que é deles e não nosso. Só se for a título de esmola... | 262 As duas medidas |
| É aqui que intervém João XXIII: o supérfluo de cada um de nós mede-se pela necessidade de cada um dos outros. Alguém pensou nisto quando fala de justiça social? | 263 Flecha incómoda |
| Quando, em 1962, no Colégio das Religiosas do S.C.Maria, de Quelimane, perante perto de uma centena de missionárias e missionários, me atrevi a tocar no tema do voto de pobreza, o mais idoso dos membros da LAIN (vulgo, "pátria morena") dizia em surdina: "–É preciso que ele dê o exemplo." De facto, tive sempre o vício de falar, mais ainda de escrever, e o de dar o exemplo nunca foi meu apanágio; e vou-me sempre refugiando numa desculpa crónica (de mau pagador): não é por não ser capaz de fazer que vou deixar de dizer ou escrever o que penso (em mim, palavra e realidade não são uma e a mesma coisas como nos meus compatriotas de origem banta). | 264 Atrevimento de um "laico" |
| Sincera ou insinceramente, também ponho as minhas dúvidas sobre a eficiência para a humanidade de conversões isoladas (ainda que cheguem ao martírio físico ou psíquico): serão sempre excepções, e a confirmar a regra ainda por cima. Muito menos vou em conversões em série ou em massa (tipo Constantino, por exemplo). | 265 Ineficiência do indivíduo e da massa |
| Acredito, sim, na conversão, salvação, libertação, em grupo, mas estas exigem igualmente a restituição, sob pena de tudo ficar em comédia e hipocrisia. | 266 Eficiência do grupo |
| A teologia moral, mesmo a clássica, não diz que o pecado do furto e do roubo não pode ser perdoado só pela confissão, mas exige que se restitua o que a outros pertence? E Padres da Igreja há, categóricos: "–És rico? Ou tu ou os teus pais são ladrões." | 267 Exigência que ergue muralhas |
| Falhámos em termos de revolução e em termos de igreja, salvaguardando, é claro, certos grupos e certos sectores (uns conhecidos, outros bem escondidos); mas não desistimos. | 268 Cair e levantar |
| A restituição, porém, tem de ser criteriosa para ser eficiente. De que valeu aquele meu companheiro ter tido repentinamente um aumento descomunal? Mas a pretexto de critério, não podemos adiar indefinidamente. Temos de pensar e realizar, a partir de já, numa restituição estruturada e bem estruturada de maneira que ekumi (essa vida forte, fecunda, fraterna/sororal) seja, de facto, palavra e realidade, palavra tornada realidade. | 269 Se não restituis, não serás perdoado |
| Vamos restituir o supérfluo de cada um de nós, medindo-o não pela "ambição pequena" de ser rico (de que ainda anteontem nos falava na TVM o nosso Arquitecto José Forjaz), mas pelas grandes ambições de um João XXIII? |
270 Ambição pequena contentar-nos-á? |
| E.T. – Ao ver anunciada a reabertura da Faculdade de Ciências de Educação da Universidade Eduardo Mondlane, e ao redigir o § 24.º deste artigo, relembro o Alípio que tanta falta nos faz para ensinar Psicologia (e não só) e de quem ainda hoje se fala com ternura e simpatia nos meios académicos. |
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| Maputo, Coop, Domingo, 21 de Novembro de 1999 |
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| Há coisas tão pequeninas em si mesmas e sobretudo tão insignificantes em comparação aos grandes projectos revolucionários que até parece mesquinhez preocuparmo-nos com elas ou mesmo propósito de gastar tempo, para não dizer desviar as atenções do principal para o secundário, fazendo-nos perder no caminho. | 271 Reacção objectiva ou subjectiva? |
| Que mal haveria em que Bonifácio Gruveta procurasse uma gravata e um casaco para comparecer num jantar que o governador colonial lhe oferecera pouco depois da sua chegada a Quelimane à frente do primeiro contingente das Forças Populares? Não seria muito mais condizente do que apresentar-se com o seu fato de caqui, por mais limpo e asseado que fosse? | 272 Etiqueta ou bom senso? |
| Eu, no entanto, opinei (outros também terão pensado, mas não falaram): –Não faças isso, veste-te como costumas, és mais autêntico. – Samora faz questão nisso, camarada – respondeu-me. | 273 Inoportunismo |
| E lá devem ter ido, ele e a comitiva, de casaco e gravata. E eu fiquei a magicar: –Será só por obediência? Será por gosto? Será por cedência? Escaparão a um certo ridículo? Como se sentirão dentro de um casaco com chumaços e o pescoço apertado por uma gravata num clima tropical, sobretudo aqueles que nunca se tenham vestido assim ou raramente o tenham feito? | 274 Direito ao ridículo |
| Se foi por questões disciplinares, que libertação será esta que nem sequer deixa cada um vestir-se como quer? Se foi por gosto, muito bem: cada um deve ser livre, mesmo perante a opinião dos que têm outros gostos ou dos que pensam que determinado vestuário se não coaduna com o clima ou o trabalho ou até a cultura. Se foi por cedência, por respeito a certa etiqueta, ou para facilitar o diálogo, ou por táctica, ou por qualquer outro motivo prático, parece-me tudo muito discutível. | 275 Globalização da etiqueta? |
| Nunca mais se falou neste incidente – aliás é possível (talvez certeza) que só para mim ou para muito poucos é que foi incidente. O trabalho continuou cada vez mais intenso, a euforia não diminuiu, os convívios, tanto de reflexão como de amizade, nunca perderam o encanto inicial. Mas eu fiquei sempre apreensivo: –Não estaríamos a camuflar exactamente aquela assimilação que tanto condenávamos e de que nos queríamos libertar, como luta indispensável para construir aquele Moçambique sem excluídos ou sequer marginalizados? As motivações daquele pormenor não seriam muito mais profundas do que poderiam parecer? Aquele comportamento não reflectiria uma mentalidade fomentadora da reacção | 276 Sintoma de mal profundo? |
| Mandela (ao menos no que toca ao vestuário) resistiu às investidas paternalísticas e moralizantes de Tutu, mantendo-se liberto perante protocolos com os quais não alinhava. E Ghandi, sempre me habituei a vê-lo igual a si mesmo. Pode tratar-se apenas de gostos, mas estes, simultaneamente, também podem revelar perfis íntimos a projectarem-se em percursos históricos mais libertadores. | 277 Comparações sempre odiosas, ou às vezes ilustrantes? |
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| Volta e meia, nos mais diversos pontos da Zambézia, de Manica e Sofala ou de qualquer outro ponto de Moçambique, missionárias com quem lidava mais intimamente, sobretudo espanholas, diziam-me: –Pareces mesmo Paulo Freire! ou: –Falas mesmo como Paulo Freire! E isso soava-me a elogio, sentia-me lisonjeado. Mas a verdade é que eu não o conhecia nem nunca o tinha lido, e desculpava-me e pedia que mo dessem a conhecer. | 278 Coincidência? |
| Finalmente: por um lado, sou convidado pelos capuchinhos de Bari para um minicurso dado pela Nilza, na altura operária da Soalpo (Vila Peri, agora Chimoio), à porta fechada, é evidente; por outro lado, o nome de Paulo Freire surge nas listas dos livros proibidos elaboradas pela PIDE/DGS; por outro lado ainda, consigo que os editores me enviem algumas das suas obras, e logo as ponho à venda com as precauções fáceis (ou talvez difíceis) de imaginar. | 279 Nome perigoso |
| Mesmo para quem já vivia um cristianismo pós-mundo melhor (confirmado posteriormente pelo Vaticano II), e daquela maneira entusiasmante como o foi nos meios missionários da Zambézia, e de alguns pontos de Manica e Sofala, um curso ou mesmo um minicurso ou até uma simples conferência ou colóquio sobre o método de alfabetização de Paulo Freire resultava sempre em qualquer coisa como revelação, transfiguração: a força transformante da palavra, quando encontrada, descoberta, inventada em conjunto e em conjunto posta em prática. | 280 Método subversivo |
| Grupo a descobrir, a pronunciar, a libertar a palavra certa, é grupo a transformar a realidade que essa palavra exprime, é grupo a libertar-se, a não se conformar com este mundo, como Paulo (Rm,12,2) nos recomenda, a tentar incarnar a palavra que Mateus (5,48) nos retransmite: "Sede perfeitos" (=fraternos, comunitários, participativos, na liberdade, na autenticidade, na ternura). | 281 Alfabetização funcional |
| "O diálogo é este encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu."(Paulo Freire, pedagogia do oprimido, Porto, Afrontamento, p. 113.) O tutoyer não é tudo, evidentemente, mas é um subentendido indispensável, porque a amizade é tão necessária para qualquer produção verdadeiramente humana (e de qualquer género que seja: agrícola, técnica, artística, intelectual, de serviços, etc.) como o amor conjugal o é para uma reprodução humana digna desse nome. Assim como se vai sentir a falta do amor universal quando se trata da justiça distributiva. | 282 Os três amores |
| Na Zambézia, já desde há muito que o tutoyer era normal e espontâneo tanto no campo da evangelização (aí deve ter começado nos anos 60) como no campo político (de esquerda, é claro) logo no início dos anos 70, ou talvez até antes. Assim recebemos, de braços abertos, no célebre 17 de Setembro de 74, guerrilheiras e guerrilheiros, que também a nós nos tratavam por camaradas, companheiras, companheiros, irmãs e irmãos, convictas e convictos de que só a sororalidade/fraternidade nos libertaria de qualquer dominação e tornaria possível conquistar aquela relativa felicidade para todos os habitantes deste país, em breve independente. | 283 Sororalidade |
| Neste contexto, sobretudo as e os jovens liceais (e depois as universitárias e universitários em férias) que vinham a trabalhar na alfabetização já desde Abril ou Maio não deixaram de estranhar que, apesar de toda a cordialidade, os guerrilheiros, ao falarem, empregassem usualmente a terceira pessoa e não a segunda. João Honwana, o nosso grande ideólogo de circunstância, a quem devemos imenso na formação e nas tarefas políticas, tomou a sério a advertência (tal era o respeito, a seriedade e o à vontade das nossas relações), e, numa noite, dentro do carro que eu pusera à disposição das FPLM, disse-me: –Camarada Júlio, ainda não temos a mente completamente descolonizada. E o tutoyer ganhou campo entre todos. Sem este clima não teríamos feito nem metade, naqueles anos, pelo menos de 74 a 77. | 284 A importância do tutoyer |
| Aos que considerem o tratamento por tu com qualquer conotação populista ou irrespeitosa, posso citar o insuspeito Moura Vitória na secção Como falar.../Como escrever... na edição n.º 19474 do NOTÍCIAS, do Maputo, de sábado, 19 de Novembro de 1983, e logo concluiremos que essa forma de tratamento, longe de irreverente, mesmo quando usada com superiores, é até a mais correcta e de harmonia com a língua portuguesa. | 285 O falso respeito |
| E muitas vezes penso por que motivo a hierarquia católica de Portugal (e também a de Moçambique, tanto colonial como pós-colonial... pelos vistos) não quis e não quer que tratemos a Deus pela segunda pessoa do singular e imponha o plural majestático, talvez muito a jeito do Antigo Testamento, mas nada consentâneo com o Novo. E não colhe o argumento de ser trino, porque a fórmula a que me refiro – o Pai Nosso – refere-se a uma só Pessoa: à Primeira. E o pior, para nós, é essa mentalidade ter sido contagiada a toda a "lusofonia africana". Nisto, felizes os francófonos, para não falar dos anglófonos, já de outra raiz linguística. | 286 O plural majestático |
| É claro que ninguém nos pode tirar a liberdade dos filhos de Deus, também para tratar o Pai como entendermos ou como o Espírito nos sugerir. Também aqui, e não só na política, o formalismo nos esvazia e frustra. (Como seria bem pastoral rever a esta luz toda a liturgia... e catequese, é claro.) | 287 Objecção de consciência |
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| Tenho aqui à minha frente o Suplemento de A VOZ DE MOÇAMBIQUE n.º 419, ano XVI, Agosto/Setembro de 1975: ENCONTRO DE SAMORA MACHEL COM OS JORNALISTAS.Seis páginas repletas da melhor doutrina revolucionária capazes de mobilizar todo um auditório de jornalistas. É claro que, e felizmente, nem todos poderíamos concordar com tudo, mas, no essencial, penso que, naquela altura, vibrávamos em uníssono em qualquer parte do país onde estivéssemos a lutar. | 288 Aparato |
| Samora, num grande à vontade, impecavelmente vestido à europeia: fato, colarinho, nó de gravata maravilhoso, cinto nas calças, botões de punho, e sem nada de ridículo. Na mesa, também pelo menos dois tinham gravata. No resto da assembleia, tudo informal: ainda não devia ter sido "decretada" ou implementada a única alternativa protocolar: fato e gravata, ou conjunto (balalaica e calça – comprida evidentemente – do mesmo tecido). Cada um vestia a seu gosto, e muito bem... | 289 Etiqueta |
| O pior é que podemos aliar esta maneira de vestir do nosso camarada presidente a estas palavras logo na terceira coluna da primeira página do referido suplemento, que eu nem sequer sublinhei... a ver se esquecia (mas não esqueci): "Eu fico muito satisfeito quando me chamam senhor. Senhor não significa reaccionário."(sic) | 290 Haverá senhor sem servo? |
| Pior ainda é se relacionamos estas palavras com a sua posterior opção prática pelo estalinismo, mesmo sem nunca ter renunciado à opção teórica pelo marxismo-leninismo. | 291 |
| Nas formas de tratamento e no modo de vestir tanto podem esconder-se como manifestar-se simples gostos, como também profundas inclinações, que mais tarde ou mais cedo se traduzirão em actos e até em lutas. Sem farisaísmos e sem intolerâncias, nenhum mal fará em estarmos atentos, sobretudo a nós próprios. | 292 Vigilância |
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| Neste clima de formalismos, não tardou que se "decretassem" batas, uniformes, fardas... para as escolas. E o que mais me custou foi a passividade com que tais medidas eram acatadas e toda a ideologia subjacente, sem um mínimo de espírito crítico, naquela obediência mecânica que tanto condenávamos em comícios, reuniões e cursos de política. Até quem, para encanto meu e conversão minha, décadas atrás me havia alertado para os malefícios de tal uniformização! | 293 Meninos de uniforme |
| Então não continua a ser essencial a educação estética também no modo de vestir? O que fica bem numa ou num não ficará mal ou menos bem noutra ou noutro? E a educação para a liberdade onde fica, se até no vestir houver imposições? E a educação higiénica? O vestuário não deve diferir consoante vivem longe ou perto da escola, fazem o percurso a pé ou de carro, a estação do ano, a estrutura somático-psíquica, e tantos outros factores? | 294 Alternativas no vestuário |
| O cúmulo é quando me vêm com sermões éticos: disfarçar a desigualdade económica, encobrir a miséria, reprimir a pompa e o estadão. E por que não, por um lado, ajudar a sair da miséria (enquanto novas estruturas não a erradiquem) e, por outro, convencer a menina ou o menino de famílias ricas a terem vergonha da ostentação e vestirem com simplicidade (enquanto uma conscientização não se opere nelas e neles)? | 295 A mania (ou a manha?) do encobrimento |
| Do uniforme e da farda ao militarismo irá grande diferença? Os treinos político-militares não estariam nessa linha? Como situar, então, todo aquele belíssimo discurso de Samora contra o militarismo, e aquela ainda mais encantadora preocupação de que as crianças não brincassem com nada que imitasse armas, e isto exactamente quando incitava adultos a não fugirem ao serviço militar obrigatório? | 296 Brinquedos em forma de armas |
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| Nos primeiros tempos, lá fomos aceitando, embora com muita pena, a interdição de passagem pela marginal do Rio Kwakwa (apelidado de "Bons Sinais" por Camões) no troço que vai da Madal até a Pérgola, porque ali se situava o palácio do governador provincial. | 297 Espaços interditos |
| Todos gostavam, qualquer que fosse a idade ou a condição social, de passear ali, sobretudo nas tardes dos fins de semana, ou mesmo nos outros dias, quando o trabalho terminava e o sol se ia pondo, lá para os lados do nosso porto de Quelimane. | 298 Formas e cores que fascinam |
| Estava, porém, uma revolução em curso, os reaccionários não desistiam e isso era realidade, não fantasia ou mania de perseguição: toda a vigilância e segurança era pouca, e todos os sacrifícios valiam a pena para triunfarmos. | 299 Renúncia que parecia necessária |
| E por todo o país foram surgindo ruas bloqueadas, passeios bloqueados (–Então os passeios não são para os peões? – insurgira-se uma vez o próprio Samora), locais, recintos e monumentos bloqueados, às vezes com sinalização tão insuficiente que era mesmo preciso andar com muita atenção ou adivinhar... E ai de quem quisesse dialogar ou apresentar as suas razões, ainda que fosse invocando o que do topo vinha determinado... | 300 A caminho do estalinismo ou/e do sacro? |
| Até o grande jardim fronteiriço à Câmara Municipal de Quelimane, que era tão agradável atravessar, ainda que fosse para encurtar caminho, foi interdito, mesmo sem qualquer sinal a indicar essa proibição. Então seria preciso assinalar uma evidência destas? Lá no centro... um simulacro de monumento aos heróis da libertação nacional!!! Quem ousaria pisar parte que fosse do grande quadrado (de umas boas dezenas de metros de lado) – todo ele também virado sagrado por proximidade tão sagrada? | 301 Sacralização |
| Cheguei a reclamar, mas sem efeito. Como poderia eu, tão inserido no meio revolucionário, desperceber o óbvio? Só em dias especiais, e com rituais protocolares, se podia pisar aquele terreno... e quem fosse digno disso... evidentemente. | 302 Religião dos não religiosos |
| Eu próprio fui protagonista de três pequenos incidentes. O primeiro foi em Lichinga, no segundo semestre de 1977. Era a única capital de província que ainda desconhecia. Andava feliz por estar a pisar mais um pedaço de Moçambique (zona libertada da humanidade – como se lia, em emocionantes parangonas, no tempo de Samora, mal desembarcássemos de qualquer avião no aeroporto do Maputo), andava feliz por reencontrar conhecidos e por estabelecer novas relações. O convívio com dois magistrados e um poeta durante aqueles dias, nunca poderei esquecer. Mas, ao mesmo tempo, por pequeníssimos incidentes, comecei a sentir que qualquer coisa já não corria como nos anos anteriores. Restrinjo-me a contar aquilo que se refere aos tais espaços que eu apelido de sagrados. | 303 Fraternidade a quebrar-se |
| Uma rua estava vedada aos carros por enorme cancela levadiça, mas a parte dos peões não tinha qualquer vedação. Além disso, na série de sinais de proibição ali patentes, nenhum se referia a peões (ou pedestres, como dizem os brasileiros). Saudei o guarda de serviço e dispunha-me a avançar. Este avisa-me que não podia circular naquela rua. Habituado que estava a falar, na mais amistosa camaradagem, com guerrilheiros e guerrilheiras, disse-lhe que nenhum daqueles sinais se referia a peões. Ele, porém, logo me cortou a palavra e secamente me advertiu de que não admitia conversa. Terminava o clima de confraternização que vivera até aí não só em Moçambique como em Angola, na Madeira, nos Açores e em Lisboa, após o 25 de Abril? | 304 Obedecer e calar |
| Doutra vez, foi no Maputo. O NOTÍCIAS avisava que o monumento onde estavam os restos mortais dos nossos heróis de libertação nacional estaria aberto ao público no dia seguinte, da parte de manhã. Fiquei contente, porque nunca o havia visitado, embora passasse lá frequentemente, quando ia ou vinha do aeroporto. E lá compareci à hora indicada. Era para levar o recorte do jornal, mas pareceu-me desnecessário. Como em certos monumentos ao soldado desconhecido (da 1.ª guerra mundial) que havia visitado na Europa, lá estavam dois sentinelas perfilados como estátuas. Olhei para todos os lados a ver se, além deles, haveria alguém a indicar o caminho e, depois, a entrada, que, ao longe, não me parecia nada clara. Como não vi ninguém nem nenhuma guarita, avancei lentamente para o centro da enorme rotunda. E ia a pensar: –Os sentinelas não falam, não se vê nenhuma porta, como poderei entrar? Mas um dos sentinelas, quase sem se mexer e muito delicadamente, avisou-me de que não devia ter avançado. E mal me viro, ou ainda antes de me virar, já um outro soldado vem no meu encalço, alvoroçado, que eu não podia ter feito aquilo sem autorização, e logo me conduz ao chefe. | 305 Restos exigentes |
| Como é que eu me atrevi a pisar chão sagrado (a expressão é minha: não dele). Só em grupo se pode fazer isso. Expliquei que vivia no Norte e que lera no jornal... mas penso que não ligou muito. Se ia só, tinha que trazer uma guia... e que tinha de ser acompanhado por um deles, para me ensinarem o respeito com que se tem de visitar esses lugares. Pediu-me a identificação, escreveu, escreveu, e, por fim, mandou-me embora sem me deixar visitar os lugares sagrados. (De facto, à entrada do Ministério da Agricultura, havia uma casinha onde estavam os soldados: eu é que não relacionei Ministério e monumento, Agricultura e panteão, e devia tê-lo feito, pelos vistos...) | 306 Preço da minha curiosidade |
| E ainda de uma outra vez, não me lembro se antes ou depois desta merecida lição de civismo e sobretudo religiosidade (como é que eu podia saber respeitar os caídos durante a guerra anticolonial, se um soldado me não ensinasse?), tive de ouvir longa pregação. Tinha ido falar com o P.Arlindo, franciscano da Polana, e entrara pelo lado da igreja. Mas, à saída, fui conduzido à porta principal, e fiquei logo em plena Avenida Armando Tivane, quase na esquina da Nkwam Nkrumah, e esse troço virara sagrado pela proximidade de quartel, não do templo católico, evidentemente. Então eu não sabia que, se entrei no convento franciscano por um lado, tinha de sair pelo mesmo? Era, de facto, muito grave. Como é que eu, tão vivido em lutas revolucionárias, fui cair em tal incongruência? (Ainda me fez namoro ao relógio, mas eu, em consciência, não podia ceder, e, por fim, lá consegui continuar caminho, mesmo sem retornar àquele pelo qual tinha entrado...) | 307 A lógica de mim desconhecida |
| Mais tarde, já na minha casa de Quelimane, contei isto a um ministro que me fora visitar. E rimo-nos. Eu, porém, fiquei sempre preocupado, porque era impossível que qualquer coisa na revolução não estivesse a desmoronar-se. (E estava!) | 308 Riso que se torna amarelo |
| Com tudo isto, como poderia estranhar quando ouvi que na presidência da república havia uma cadeira na qual só o nosso máximo se podia sentar? Não é verdade que uma vez o arcebispo da Beira chamara à atenção do bispo de Quelimane para o facto deste último se ter sentado, na ausência do primeiro, na cátedra arquidiocesana? De facto, qual é mais importante: o terem sido os dois sagrados como bispos da Igreja católica ou um ter o título de arcebispo e o outro ser seu sufragâneo? Qual é mais importante: a teologia ou o direito canónico? Se este último até fica acima dos evangelhos... | 309 Cátedra da contradição |
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| Da sacralização de espaços para a de pessoas, não sei que distância fica. A globalização galopa: dinheiro, honra e todos os seus símbolos. | 310 Galope sacrossanto |
| A pirâmide substitui o círculo, o topo e a base passam a articular-se pelo centralismo burocrático, embora continuem a chamar-lhe de democrático, como era de praxe, e as reuniões, essas, nunca chegaram a respeitar a cultura moçambicana nem a ciência e a técnica das relações humanas: sempre continuaram como a potência ocupante fazia (mesa para os sagrados, alinhamentos sucessivos para os profanos). | 311 Geometria sagrada |
| Redondo? Só onde chegava a iniciativa dos alfabetizadores, quando não acontecia, até estes, serem subtilmente reprimidos por conotações com democracias cristãs... A arrogância dos assimilados nem os deixava compreender a tradição mais genuína nem a ciência mais moderna, que, neste caso, se abraçavam. | 312 Geometria popular |
| E o termo camarada passa a ser tratamento só entre membros do Partido, e só dentro das reuniões: –Camaradas? Nem de escola! – diria um alto dirigente do nosso principal banco. (Já bastante antes, logo nos inícios, se havia determinado que isso de camarada não se aplicava a nível de estado, onde o excelência e senhor dos colonialistas continuava, obrigatoriamente...). | 313 Morte da sororalidade/frater-nidade |
| Calções – começam a cair mal: –Não sabia para onde vinha? – perguntava-me um administrador, exactamente como outrora me perguntava um juiz colonial por eu chegar ao desplante de não levar gravata. | 314 Calções |
| Mini-saias – são conotadas com má vida. E ai de quem se não apresentasse num restaurante sem fato e gravata, ou, então, de balalaica e calça comprida a condizer (o tal conjunto). Ficaria à porta, do lado de fora, ou teria de se ir mudar, compor... | 315 Minis |
| Jeans? Nem pensar: homem ou mulher que fosse. E, por mais elegante que uma pessoa se apresentasse, isso não contava. Mas, com uma gravata muito mal posta (bem ao contrário de Samora) e um fato muito mal amanhado, logo as portas se abriam... e com todas as vénias. | 316 Vénias à gravata |
| E dos casamentos revolucionários, cheios do simbolismo da aliança operário-camponesa, passou-se a um casamento civil esbatido no machismo dos casamentos religiosos, onde nem faltava o véu da submissão feminina e a homilia do representante do conservador: –O marido é como o presidente, e a mulher, como o primeiro ministro. Anticonstitucionalidade até o ridículo! | 317 E as "homilias"? |
| Isto ouvi eu até no casamento do nosso primeiro embaixador plenipotenciário junto da ONU, e, depois, ministro dos recursos minerais. E ele bem me prometeu que eu nunca mais ouviria semelhante aberração nos Registos Civis de Moçambique. Mas ouvi. Carlos Lobo desconseguiu – até que a sua invisibilização o atingiu, juntamente com a do nosso, apesar de tudo querido, Samora, em 19 de Outubro de 1986. | 318 Carlos Lobo |
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| A forma é, ontologicamente, para expressar/exprimir o fundo; e, logicamente, para nos possibilitar e ajudar a abordar, penetrar e saborear, se possível até a exaustão, esse fundo. | 319 Forma e fundo |
| O formalismo esconde o fundo, frustra tal possibilidade de penetração, porque esvazia o conteúdo e nos conduz exactamente ao oposto: ontológico e lógico. | 320 Formalismo |
| Por isso, quando vinha ao Maputo e me proporcionavam algum encontro com "altas(?) estruturas" (outro termo aberrativo), apesar de todas as críticas e talvez subtis ameaças de nunca mais mos proporcionarem, eu nunca perdia a ocasião de condenar o formalismo em que nos estávamos a afundar como uma das mais perigosas reacções. | 321 >Mein kampf |
| E o mais interessante é que o topo sentiu-o e tremeu...: a vanguarda não era mais vanguarda, porque já não se identificava com o povo: virara élite, separada, portanto, dele. E que poderíamos realizar sem o apoio do povo, ou, pior ainda, com o medo e a hostilidade do povo? | 322 Tardiamente, o topo vê |
| Lembro-me muito bem de uma das últimas orientações que recebi quando era chefe de quarteirão e presidia à comissão de moradores: –A posição de sentido é para os militares, não para os civis. Sempre que dirigentes ou governantes passem pelas ruas ou surjam algures, o povo deve manifestar a sua alegria acenando ou como melhor se coadune com os seus sentimentos, mas nunca perfilado ou em sentido. | 323 Tentativa a desoras |
| Obedeci, como sempre que não fosse contra a minha consciência, mas essa obediência só serviu para continuar, agora com o apoio do topo, o que sempre havia feito... porque nunca esperei por orientações para seguir e prosseguir na linha revolucionária (sem desvios à direita ou à esquerda). | 324 Disciplina revolucionária |
| Mas fiquei contente por ter mais este argumento vindo do topo, como contente havia ficado com o Vaticano II e até já com algumas ou parte de algumas encíclicas, por confirmarem e valorizarem o que já há bastante fazíamos no campo missionário. | 325 O apoio vindo de cima |
| Quando as coisas, porém, são ditas ou feitas não por convicção, mas por populismo, outra forma de oportunismo (agora de cima para baixo) – o povo, o povo, o povo, dos políticos, ou os leigos, os leigos, os leigos, dos clérigos), não resultam: soam a oco. | 326 Vacuidade: o continente já sem conteúdo |
| Numa visão hilemorfista, forma substancial (acto) e matéria prima (pura potência), sendo princípios quo (pelos quais) e não quod (o qual) não existem separadamente, mas só unidos – no plano essencial: aquela é o princípio da especificação, esta, o da individuação. | 327 Essência |
| No plano existencial, porém, a substância, embora normalmente exprimindo-se, manifestando-se pelas propriedades (necessárias, mas não essenciais) – quantidade e qualidades – e estas, pelas notas individuantes (acidentes), pode ocasionalmente separar-se delas: é o fundo a esvaziar a forma, ou, talvez, a forma a deformar o fundo, a forma a escoar o precioso conteúdo.. | 328 Existência |
| É o drama do formalismo, roupagem imprópria a esconder corpos cheios de beleza. |
329 Incongruência do formalismo |
Citronellas Café, Sugar Beach, Mauricius,23 de Março de 2000. |
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| Júlio M. R. Ribeiro |
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| Quando tinha voz activa no campo missionário, o primeiro Bispo de Quelimane sempre me facilitou encontros, deslocações e todo o género de iniciativas que me permitissem, na base, ajudar a criar uma autoconsciência dos próprios valores, da própria cultura, da própria identidade, e, no topo, participar numa reflexão sobre a maneira de cristianizar: –Será correcto transmitir um cristianismo europeizado? Ou sacramentalizar antes de uma profunda e prolongada evangelização? A missa no início (à maneira da Ilha de Moçambique ou de Porto Seguro, há cinco séculos) ou no fim de uma árdua caminhada comunitária (à maneira da véspera da morte de Cristo)? E evangelizar logo depois de uma qualquer adaptação (ou até sem ela) ou só depois de uma verdadeira inculturação? | 330 Evangelizar por direito ou por concessão? |
| Os Padres Brancos, primeiro, o Mundo Melhor, depois, e o Vaticano II, por fim, e essa reflexão vai surgindo um pouco por todo o lado, talvez com predominância na Beira, Quelimane e Nampula, e vamo-nos comunicando com crescente entusiasmo. Na Zambézia, destaca-se Ambrosio Comotti, dehoniano, com os cursos de reciclagem de Milevane em 1975, o Texto Base das LINHAS DE PASTORAL NA DIOCESE DE QUELIMANE e o organigrama estrutural, tudo elaborado comunitariamente e já numa perspectiva não eclesiástica, piramidal, mas eclesial, circular. E nunca vi tanto respeito e carinho pelos nossos bispos e presbíteros como quando a távola redonda virou costume. Era o enlace fraternal/sororal entre topo e base – termos que saem do nosso vocabulário: sois todos irmãos... a ninguém chameis de pai(=padre) sobre a Terra... nem de mestre... (Mt,8,9-10). | 331 Da pirâmide ao círculo |
| Hoje, a maior parte dessas conquistas são pacíficas, ao menos teoricamente. Ninguém questiona a cultura banta, as línguas nacionais, as comunidades com os seus ministérios e carismas, o catecumenato, a participação activa do laicado, a igualdade de direitos de mulheres e homens, a Bíblia... O que não significa que, na prática, não exista um reducionismo da cultura a elementos acidentais, secundários ou até negativos, não se deleguem as línguas bantas para segundo plano, se não esvazie o significado de comunidade ou de catecumenato, se não mistifique a participação dos leigos e das mulheres em especial, se não descure o estudo da Bíblia (quem sabe se a favor de "revelações" particulares, como acontece com a Liturgia, "pastoralmente" subalternizada a devoçõezinhas). Já é muito animador, porém, uma certa plataforma teórica, que, em tempos, estava longe de existir. Mas já não tem cabimento a euforia dos fins dos anos sessenta e inícios dos setenta. | 332 Avanço e recuo |
| Lembro-me de como o Vicente, numa das minhas poucas viagens ao Sul, me apresentou à assembleia dominical onde eu surgira, talvez nos meados da década de setenta. E lembro-me de como exteriorizei a minha alegria: sim, estava contente, era um cristianismo incarnado na realidade africana pelo qual todos lutávamos e não por um produto importado do estrangeiro (e logo da potência ocupante e/ou anexadora). E lembro-me de ter manifestado a minha esperança de também chegarmos a um consenso sobre a compatibilidade do Evangelho com uma transformação socialista e a incompatibilidade do mesmo com a manutenção do capitalismo. | 333 Nova etapa |
| E em 77, quando pela última vez me foi dado exprimir a minha opinião perante o topo, que condescendia em ouvir a base, mas não se dignava misturar-se com ela nos grupos que antecediam os plenários, o que me levou a dizer alto e bom som que me sentia recuado vinte anos, não perdi a ocasião de manifestar o método que me parecia melhor seguir, no momento, perante a revolução em curso. | 334 mas esta... fracassada? |
| De facto, havendo uma plataforma humana tão importante com o que de essencial há no marxismo-leninismo, não adianta lutar contra essa linha: adianta sim, e isso com toda a urgência e com todas as nossas forças, evitar que caiamos no stalinismo, que, aliás, nunca figurou nos documentos oficiais, mas que, na prática, parecia iminente. | 335 Contraviolência gratuita |
| E por que haveríamos de lutar contra o centralismo democrático, que nada tem de desumano e pode ser um mecanismo bem eficaz de comunicação base-topo-base? Lutar, sim, contra o centralismo burocrático, que já começava a fazer das suas, a coberto da confusão entre os dois centralismos. | 336 Opressão disfarçada |
| Até mesmo o materialismo dialéctico, em vez de afrontá-lo, por que não penetrá-lo e aproveitar os seus aspectos positivos? Afrontar, sim, e sem hesitações, o materialismo mecanicista, absolutamente incompatível com o nosso humanismo e sobretudo com a nossa fé. | 337 Reducionismo |
| Se aceitamos o jogo democrático (para o poder temporal, evidentemente, que para o mundo eclesiástico isso não funciona), e a grande maioria dos eleitores vive do seu trabalho e não de rendimentos, temos de aceitar a vontade dessa maioria. O que temos de evitar é que ela seja manipulada pela ditadura declarada ou tácita de qualquer elite. Sobretudo para quem pronunciou voto de pobreza, parece ser evidente a opção: será?... | 338 Democracia de exportação |
| A alfabetização era uma palavra de ordem, e com ela facilmente distinguíamos a vigilância revolucionária, popular, da vigilância reaccionária, pidesca, a disciplina revolucionária da disciplina opressora, o protocolo revolucionário do protocolo dos ricos. E aqui, será difícil a opção? | 339 As duas linhas |
| E sobre o recurso à ciência e à técnica a favor não apenas de elites, mas de todo o povo, teríamos algo a obstar? O que tínhamos era de exigir que fôssemos, de facto, verdadeiramente científicos sem omitir nenhuma das ciências, como estava a acontecer, por exemplo, com a pedagogia e a psicologia. E que as tecnologias fossem, de facto, as mais adequadas para sair do subdesenvolvimento. | 340 A via mais eficaz |
| E (isso não o disse na altura, mas disse-o noutras ocasiões) que mal haveria até em assumirmo-nos como ateus (em sentido relativo, é óbvio), se até os primeiros cristãos eram considerados como tais por não adorarem nenhuma criatura, imperadores que fossem ou deuses do Olimpo? Não nos veda o Evangelho curvarmo-nos (ajoelharmo-nos) perante o dinheiro, o poder e os demais ídolos de que a sociedade de consumo está cheia? E não foi tão educativo não pronunciarmos o nome de Deus nas escolas durante aqueles primeiros anos? Pelo menos não o invocámos em vão, como tantas vezes o fazíamos, convertendo-o, na melhor das hipóteses, num deus tapa-buracos (para safarmo-nos da nossa ignorância e da nossa preguiça de estudar) ou num deus justiceiro (atribuindo-lhe o nosso espírito vingativo, que assim até se disfarçava em virtude) – em todos os casos, num ídolo feito à nossa imagem e semelhança. Tomáramos nós a morte desses deuses! | 341 Nós, ateus |
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| Com que cara ia eu atacar o stalinismo emergente e crescente, se eu próprio há décadas ajudava com todas as minhas forças a implantar em Moçambique uma Igreja que, também ela, em determinada época histórica, se estruturou na violência, querendo expandir a fé com o recurso (aberto) da espada ou o recurso (subtil) do braço secular – e este último mesmo nos nossos dias?... (Não é o Papado a última monarquia absolutista da Europa – como nos chama a atenção Hans Kung?) | 342 Como ser coerente? |
| Cristo, qualquer que tenha sido a prática posterior da hierarquia ou mesmo a teoria dos teólogos para a defenderem, foi bem claro quanto ao recurso da espada (Mt,26,52; Lc,22,49-51; Jo,18,10-11). E naquele livrinho de bolso (capa vermelha e letras douradas) que todos líamos e discutíamos – CINCO ARTIGOS DO PRESIDENTE, das Edições em Línguas Estrangeiras, de Beijing, publicado em 1972 – Mao Zedong, também qualquer que tenha sido a sua incoerência neste assunto, é bem claro, a páginas 58, em condenar, como comportamentos reaccionários, mesmo na disciplina militar, o recurso a execuções e castigos corporais. | 343
Putschismo |
| Quando lemos as punições dos crimes contra a segurança do Povo e do Estado Popular de Moçambique da Lei 2/79, publicada na I Série do BOLETIM DA REPÚBLICA n.º 25, de Quinta-feira, 1 de Março de 1979, páginas 83-89, e, quatro anos mais tarde, a medida punitiva e educativa aos autores, cúmplices e encobridores de vários crimes, consumados, frustrados ou tentado (sic) da Lei n.º 5/83 publicada no Suplemento de Quinta-feira, 31 de Março de 1983 do BOLETIM DA REPÚBLICA n.º 13, páginas 26 (1-2), também da I Série, com a agravante do art. 8 – A presente lei entra imediatamente em vigor e aplica-se aos casos ainda não julgados – e, passados mais quatro anos (Samora já tinha desaparecido fisicamente: outros culpados há... e sempre houve), a Lei 17/87 – dos Crimes Militares – publicada no 6.º Suplemento, de Segunda-feira, 21 de Dezembro de 1987, do BOLETIM DA REPÚBLICA n.º 50, páginas 418 (19-32), também da I Série, com a menção desonrosa da alínea e) do art.21, arrepiamo-nos: a revolução tinha acabado! | 344 Repressão Suicida |
| Mesmo que não tivéssemos dado motivo para isso, é discutível que, de momento, a ganhássemos, tal era a força ora subtilíssima ora brutalíssima do imperialismo, agora disfarçado pela globalização – palavra atraente, se não significasse exactamente o contrário: exclusão. | 345 Facilitámos o caminho |
| Mas demos motivos de sobra: rusgas a improdutivos e a prostituas, a conotarem aquelas rusgas que eu via no tempo colonial para fornecimento de mão de obra para as companhias; campos de reeducação a conotarem os que conhecemos na Europa nos inícios dos anos quarenta; aldeias comunais (a nossa grande esperança, se geradas pela conscientização) a conotarem os aldeamentos da guerra colonial; e, agora, uma repressão do género stalinista ou mesmo da mais extrema direita. | 346 Caímos na imitação |
| Um processo revolucionário nunca será sustentável enquanto não formos capazes de resistir à tentação de utilizar as mesmas armas dos patrões: só transitoriamente eles serão derrotados, porque, além do mais sofisticado armamento ser sempre o deles (a sucata é que nos é vendida), o poderio dos meios de comunicação social é de uma profundidade psicológica e de uma expansão tal que é até ridículo comparar (qual a tiragem, por exemplo, de um FRATERNIZAR e de qualquer jornal dos grandes empresários do mesmo país?). | 347 ...até nas armas! |
| Só levaremos uma revolução a cabo se a nossa agressividade for sempre norteada pela verdade (que exclui a ineficiência técnica, o erro científico e a hipocrisia) e pelo amor político (que exclui tirar a vida ao próximo e sobretudo exclui desistir de proporcionar ao inimigo, que de facto existe em nós e nos outros, ocasiões de se conscientizar, não lhe dando mesmo margens a fugir delas). | 348 Agressividade sem violência |
| Só essa convicção de que a verdade é mais forte do que a falsidade, o erro e a mentira, e de que o amor é mais forte do que o ódio (por mais hipocritamente que este esteja escondido), e resistindo a todas as provocações que nos façam cair no desespero, ou às publicidades que nos acenam com falsas esperanças, ou às tais balas de açúcar de que falava Samora e que nos levam à tentação de nos acomodarmos e desistirmos... às vezes dizendo que é só um parêntesis, mas que, de facto, se abre e nunca mais se fecha para recomeçar... – só essa fé na verdade e no amor pode levar a bom termo uma revolução que, no fundo, afinal, não passe de reacção. | 349 Paciência sem resignação |
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| A Lei 5/83 e a alínea e) do art. 21 da Lei 17/87 são revogadas na Segunda-feira, 18 de Setembro de 1989, pela Lei 4/89, publicada no 3.º Suplemento do BOLETIM DA REPÚBLICA n.º 37 – I Série – página 348 (5), tarde, muito tarde, para as autoridadezinhas perderem o vício de tudo querer resolver à pancada (mal se abriu um precedente jurídico, logo todos se arvoravam em juízes – ilegalidade era mato – como até se pode ler nos jornais). Tarde, muito tarde, sobretudo para readquirirmos a credibilidade. (Custa muito termos de ouvir que afinal também nós, católicos, não podemos esperar readquirir a credibilidade pedindo desculpas com um atraso de séculos, e continuando a festejar triunfalisticamente os quinhentos anos, e não só!) | 350 Adeus, credibilidades |
| Perante este trunfo que os grandes, médios e pequenos senhores constantemente nos atiram à cara, que faremos? Resignarmo-nos? Desistir? Dar-lhes razão? Aproveitar pelo menos as migalhas que nos deixem dos grandes, médios e pequenos assaltos? Camaleonarmo-nos? Virarmos misantropos? Suicidarmo-nos? | 351 Trunfo na mesa = xeque-mate? |
| Se até Saramago, ainda que muito grande, não deixa de ser herdeiro da cultura greco-romana, e afirma com toda a veemência e dignidade: –Este fracasso, esta derrota histórica não significa uma derrota definitiva nem desses ideais nem das possibilidades de chegar, por uma via mais justa e mais humana, a um grau de felicidade e de bem estar relativos que se distinga do espectáculo deplorável que no mundo existe. [SARAMAGO, José – Cercos (Os) de Lisboa / (Em foco). "Jornal (O) Ilustrado", Lisboa, Suplemento n.º 775 de "Jornal (O)" de 29/12/1989 a 4/1/1990, página 11.]... | 352 Derrota provisória |
| ...Quanto mais, herdeiros e estudiosos da cultura banta, que não tolera assimetrias humilhantes, seremos capazes de não deixar morrer em nós aquela grande virtude que em língua macua se exprime pelo termo ovilelela – uma paciência activa que, sem nada de resignação, nos dá a força necessária para nos sabermos conter e só actuar no momento comunitariamente considerado eficaz! | 353 Contenção estratégica |
| É claro que não foi para derrubar o stalinismo que os senhores (deuses do Olimpo?) decidiram acabar com o projecto socialista de Moçambique – exactamente como não o foi na Europa de leste. Mas foi um trunfo inestimável: pretexto apresentado como causa, verdades para diluir a verdade, factos para provocar a miragem de um salto da escravidão para a liberdade, o salto desnecessário do muro de Berlim, porque foi derrubado... miragem dos supermercados... miragem do usufruto de todos os direitos humanos... | 354 Miragem vendida como realidade |
| Só que... um povo com fome não é um povo livre – diz Saramago na obra acima citada. E bem sabemos que, se tem fome, não é por preguiça nem mesmo por ser pobre, mas por ter sido empobrecido (pelos tais deuses que se contentam com o tratamento de senhores). | 355 Deuses empobrecedores |
| Giovanni Bonalumi, dehoniano, cujo entusiasmo apostólico me foi sempre bem patente desde o dia em que o conheci na Missão de Muliquela, no Ile – em 17 de Setembro de 1956, uma Segunda-feira –, não se assustou com a guerra colonial, nem com a revolução nem com a reacção: ardia por evangelizar a todos! Em 1977, escreve e oferece-me um manuscrito, que tenho aqui na minha frente, com o título FEDE MARXISTA E FEDE CRISTIANA / La Verità è il Cristo / Nela fede marxista: che è il vero? / e nel mondo: chi è la verità? / 101 Risposte di fede cristiana (138 páginas, que suponho nunca terem merecido a atenção dos superiores e certamente nunca foram publicadas, mas que atestam bem a sua preocupação e o seu zelo). E, na segunda metade dos anos oitenta, aceita um prolongado e itinerante cativeiro, e, sempre com o mesmo ardor apostólico com que, primeiro, abordou os soldados da potência ocupante, depois, os guerrilheiros vitoriosos e libertadores, agora entrega-se ao anúncio entre guerreiros desestabilizadores – numa caminhada de anos, forçada, cheia de sacrifícios , agruras e privações. | 356 Capelão de guerreiros |
| Pois esse missionário, que, embora muito aberto, como pude constatar, primeiro, pelo interesse que manifestou pelos métodos dos Padres Brancos, depois, pelo seu espírito de hospitalidade, finalmente, pela sua participação nos cursos de Milevane (que acima referi), era de uma piedade toda tradicional e sem qualquer simpatia por ideais revolucionários, pois esse missionário, uma vez liberto e regressado à Zambézia, dizia aos seus confrades que não tinha valido a pena fazer essa guerra: teria sido muito melhor continuar a insistir com a Frelimo para que seguisse a tal linha correcta, mas verdadeiramente correcta, sem desvios, excessos, e sobretudo sem abusos do poder. | 357 Opinião insuspeita |
| E o mais caricato, se não fosse trágico, é que reclama-se agora cobro à exploração, mas não se suportou a luta que fazíamos contra a exploração do homem pelo homem, porque era um chavão... (e até se teve de eliminar do texto constitucional!) Prega-se contra o facto da maioria estar cada vez mais pobre e a riqueza acumular-se em poucas mãos (os pobres cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos), mas não descansaram enquanto não se reinstaurou o regime capitalista. E isto num período de tempo tão curto que até parece que só se quis eliminar o nosso projecto de justiça para que depois fossem os clérigos a terem a honra de se arvorarem em seus defensores: levar à falência a iniciativa de pobres laicos, para depois surgir uma hierarquia como salvadora. (Mas, afinal, em que ficamos? Não é esse que dizeis ser o nosso campo específico? Ou continuaremos sempre menores, necessitados de tutela?) | 358 Caricato trágico |
| Quem não quer trabalhar também não há de comer (2 Tes. 3,10) será menos verdadeiro quando escrito por um clássico comunista do que quando escrito por Paulo? E, quando falávamos de homem novo, entraríamos em contradição com Col,3,9-10, ou, ainda que muitos de nós inconscientemente, estaríamos, sim, a preparar o caminho do Senhor (Mt,3,3 e Jo,1,23)? E, quando contrapúnhamos emulação (socialista) a competição (capitalista), não estaríamos muito mais em sintonia com Rm,11,14 do que quando aplaudimos as altas competições, ainda que fosse só nos campos de futebol? | 359 Subjectivismo intencional? |
| Pelo contrário, não deveríamos ficar contentíssimos por até ateus, agnósticos ou simplesmente não cristãos terem assumido como sua a Palavra de Deus – agora (incarnada no mundo) – feita palavra do homem? Ou, ao fim de vinte séculos, ainda sofreremos do zelo não esclarecido de que fazem eco Marcos (9,38-40) e Lucas (9,49): –Mestre, vimos um homem que expelia demónios em teu nome, e nós lho proibimos, porque não é dos nossos. Sabemos a resposta de Cristo, sabemos como ele se identifica com o povo e sabemos como, na cultura banta, rico e demónio se identificam. | 360 Despeito? |
| Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai.(Mt,7,21) | 361 Para bom entendedor... |
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| A desfiadura parecia pequeníssima, nem dava para ver, pouquíssimos ou pouquíssimas a toparam, talvez parecesse ridículo falar dela, ou até mesquinho. E, no entanto, parecendo que não, era um vírus profundo: o binómio anticultural senhor-servo, muito escondidinho e muito bem disfarçado (humanitariamente disfarçado, digamos). | 362 Quinta coluna |
| Mais uma malhazinha vai caindo: profissões muito boas, mas que ninguém as quer para si nem para os entes queridos. | 363 Hipocrisia? |
| O rasgão já espreita: há erros que se compreendem e até deles se podem tirar lições; mas se, em vez de emendá-los no presente e no futuro, ainda os exaltamos e mistificamos... | 364 Contumácia? |
| E a mochila rasga-se mesmo, e sem conserto: o dinheiro que só se acumula roubando aos outros, a arrogância que impõe moldes subservientes e alienantes (o tal formalismo) e o poder que deixa de ser autoridade e que se impõe mesmo à custa da integridade física do próximo – são tudo pesos excessivos... e a mochila rasga-se mesmo, e sem conserto! | 365 Orgulho? |
| Vamos confeccioná-la com tecido novo? Assim não nos falte a tal virtude que dá pelo nome de ovilelela, nem a fé revolucionária, nem aquela esperança cristã, que suplementa todo o nosso entusiasmo de recomeçar ou continuar a todo o momento. |
366 O amor nunca desiste |
| Maputo, Coop, 13 de Junho de 2000. |
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| Estava a acabar de ler a PERSPECTIVA de Helder Muteia, publicada na última página do NOTÍCIAS de Sexta-feira, 20 de Dezembro de 1991, e a pensar: afinal também aqui nem todos se deixam ir na cantiga. E uma série de interrogações me assaltaram: | 367 Não estamos sós |
| Até quando teremos possibilidade de debater estes assuntos? É que, nas ditas democracias, é costume haver muita liberdade... para os ricos. | 368 "Direito" dos plutocratas |
| Por quê tanto medo em copiar os modelos de leste, e tanta aceitação nos modelos ocidentais? Será que só os outros é que colidiam com a nossa cultura e personalidade? | 369 Modelo "aceitável" |
| Por quê tanta fobia pelo termo popular e tanta simpatia pelo termo democracia? Será que este está historicamente ileso de conotações desagradáveis? | 370 Conotações impertinentes |
| Por quê tanta meticulosidade em fazer as vontades dos citadinos e tão facilmente se desrespeita as vontade dos camponeses? (Longe de nós pensar em qualquer coisa que se pareça com uma réplica de assimilados e indígenas!) | 371 Democracia: para quem? |
| Por quê tanto contentamento pela erradicação do centralismo democrático e nem uma palavra contra o centralismo burocrático? Será que é mesmo este último que pensamos perpetuar? | 372 Burocracia ou democracia? |
| Por quê eliminar sem mais a distinção entre propriedade pessoal e privada? Será que aquela nos vai ser reduzida a um mínimo miserável a favor dos afortunados que se vão ou se estão a encher com a tão decantada privatização? | 373 Ricos e pobres:lindo ideal! |
| E por que a propriedade privada irá cair nas mãos apenas de alguns trabalhadores e até de não trabalhadores? Será que cada um não terá direito a ser dono do que produz e daquilo com que produz? Será democracia a privatização são para alguns afortunados? | 374 Patrões ou donos? |
| Por quê tanto entusiasmo na luta anticolonial e agora tão doentia ansiedade pelo neocolonialismo? Será porque neste uns tantos nacionais tomam parte mais proveitosa? Mas também não foram sempre os colaboracionistas que tornaram possível o colonialismo? | 375 Colónia, não Neocolónia, sim? |
| Por quê tão pouca clareza no emprego da palavra paz, parecendo que ela equivale a um cessar fogo? E se este, ainda por cima, for à custa de velhas e novas dominações? | 376 Simular a paz? |
| Por quê aquelas duas forças que, por natureza, se identificariam com o povo se digladiaram? Será que não viam que nos lançavam no abismo? | 377 Destruir plataforma tão rica? |
| Ainda outra vez: por quê tanto valor na luta contra o colonialismo e tanto desvalor perante o neocolonialismo? Será que já não enxergamos a realidade das aparências? Afinal, ninguém estaria convicto? | 378 Arranjismo ou convicção? |
| Mas, deixando os que no fundo só buscavam bons lugares, bons vencimentos, bons casamentos, não será o momento de se reagruparem os outros, os que com sinceridade e sacrifício serviram os ideais propostas em 74? Não acredito que todos se desorientassem, se perdessem, deixassem apagar a fé revolucionária, a esperança no futuro, o amor do povo. |
379 Apelo aos coerentes: quem não os reconhece? |
| Livraria Ovetekula | |
| Quelimane | |
| 23 de Dezembro de 1991 |
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![]() Inken: |
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| Quando me escreveste em 10 de Fevereiro de 1991, já tinha partido para a Europa, e, por isso, só li a tua carta no regresso, em fins de Julho. Apreciei muito a serenidade e objectividade com que analisas a situação, que todos estamos a viver. Desde a queda do muro que estava para te escrever, congratulando-me, evidentemente (como gostaria que todos os muros, e não só esse, fossem derrubados!), mas indignando-me também com a hipocrisia ocidental, que tanto se afligia com o de Berlim e tenta ignorar o que existe (e bem pior!) entre o Norte e o Sul, e mais flagrantemente (porque mais próximo) o que aprisiona na miséria o quarto mundo.1 | 380 Euforia de um lado Hipocrisia do outro |
| Alegrei-me imenso e alegro-me ainda por já poderes viajar por todo o mundo, aspiração tão humana e direito tão evidente. Ansiava há muito pela erradicação da herança stalinista2 que tanto desfigurou e desacreditou o marxismo-leninismo. E sempre considerei «pouco seguro» o socialismo imposto de cima para baixo. (Não era só o nosso que era «pouco seguro»...) Mas não queria acreditar que houvesse quem deseje saltar do segundo para o primeiro mundo, sabendo que isso acarretaria a criação de um quarto mundo mesmo no próprio seio.3 | 381 A isca da liberdade |
| Também aqui (e em Angola) a reconquista4 está a ser terrível (mas pode5 a CEE viver no nível em que vive sem dominar a África, ou a USA sem dominar a América latina?). Tanto quisemos evitar o neocolonialismo!6 Mas desaguentámos: em parte por nossa culpa (a pressa de enriquecer, ainda que seja sozinho,7 ainda que seja à custa dos outros). Vencemos a primeira guerra (a anticolonialista): perdemos a segunda (a neocolonialista). | 382 Não queríamos qualquer independência, e afinal... |
| Vencidos, não convencidos. Se em parte foi por nossa culpa, em grandíssima parte foi por forças que nos ultrapassam muito. À semelhança da célebre conferência de Berlim no século passado, os nossos destinos estão a ser traçados bem longe de nós,8 numa paródia de mau gosto, querendo fazer acreditar que somos nós que não nos entendemos, que não somos capazes, que precisamos de quem nos deite a mão, que precisamos de esmolas,9 quando na verdade sabemos o que queremos, temos recursos, e, se precisamos de solidariedade, é aquela de que toda a gente precisa: os problemas só se resolvem a nível mundial. E foi, exactamente, quando viram que éramos capazes, que se lançaram em força na reconquista, utilizando guerreiros (não guerrilheiros, que é muito diferente) pretos, exactamente como na época esclavagista e colonial, em que se utilizavam régulos, capatazes e sipaios, para o odioso não recair nos estrangeiros. E, depois desta mortandade, que continua enquanto as novas (ou velhas?) metrópoles se não entendem, mandam-nos "caritativamente" migalhas daquilo que nos espoliaram e expoliam, ainda uma multidão de organizaçõezinhas ditas não governamentais para as administrarem... Não mandavam também missionários os ditos descobridores (ibéricos), para encobrirem os verdadeiros objectivos e cobrirem de "caridade" o empreendimento?10 | 383 A grande farsa |
| Mas não há que ficar em lamentações: a realidade é a realidade e só essa nos interessa: o que há é que, a partir dela, cá como aí, repensar e recomeçar;11 porque, se ainda tínhamos ilusões, agora já não temos o direito de ignorar ou fingir ignorar o que já sabíamos ou o que ficamos a saber: | 384 Revigorados pela lição |
| 1.º - O mundo que desejamos – um mundo de todos nós e de cada um de nós, e no qual nós todos e cada um de nós se possa realizar plenamente – não se constrói de cima para baixo, mas de baixo para cima. (É evidente, não é?)12 | 385 Não ao centralismo burocrático |
| 2.º - Não é pelo pacifismo (resignação vegetativa) que se consegue acabar com a exploração; mas também não é pela violência revolucionária ou contraviolência (atitude já menos estúpida do que a vegetativa, mas, mesmo assim, ainda muito bestial, ainda pouco humana, e, por isso, por vezes, de eficácia a curto prazo, mas sempre pouco duradoira). A exploração só acaba se a tornarmos impossível: pode haver explorador sem haver explorado? Então, se todos os explorados ou exploráveis se recusarem a sê-lo, não é evidente que também deixam de existir exploradores e exploração?13 | 386 Não ao deixar-correr nem à guerra |
| Não é fácil conseguir recusar ser explorado e isso pode custar e custa, muitas vezes, a morte. Mas a guerra não custa muito mais mortes e, ao fim e ao cabo, não é sempre o explorador a vencer? É que as armas mortíferas são dos ricos e, felizmente, são ineficazes nas mãos dos pobres (senão, também estes se tornavam, como tantas vezes se tornam, exploradores). Que fazer? Que armas são as próprias dos pobres? Como tornar eficaz e duradoira a erradicação dos sistemas exploradores?14 Penso que estudando, aprofundando e sobretudo pondo em prática progressiva os princípios e as técnicas da NÃO VIOLÊNCIA ACTIVA.15 De acordo? | 387 Sim à luta eficiente |
| Vou terminar, porque isto já está a ultrapassar os limites de uma carta, muito embora, ainda há dias, tenha escrito para Itália uma outra de nove páginas a dar uns tópicos comentados da minha caminhada missionária (e da luta que lhe está inerente) desde a chegada a África no início do quarto trimestre de 1950.16 Tinha eu vinte e cinco anos de idade, com alguns já de luta – luta inspirada no contacto com os camponeses e sobretudo com a miséria das ilhas da cidade do Porto (não na periferia, mas no próprio centro), que são o quarto mundo onde me iniciei na adolescência e início da juventude.17 | 388 Fonte de inspiração, o quarto mundo e também o campo |
| Querem-nos ludibriar, deixando ir na enxurrada do estalinismo também o que há de essencial e positivo18 no marxismo-leninismo. Dizem-nos que estes sofrimentos são próprios de toda a transição e resultados dos nossos erros, e que dentro de alguns anos todos atingiremos um nível de vida satisfatório. Mas esquecem que nós , além de inteligência, também temos memória; e é exactamente esse quarto mundo (para não repisar no terceiro mundo) que é a mais flagrante contradição de tudo quanto dizem e prometem. Se tais são as virtudes do capitalismo,19 por que mantiveram esses submundos durante os dois séculos de reinação? | 389 Tudo lixo? |
| Esta é uma reflexão minha, mas não me sinto só:20 tenho bastantes documentos sobre os diversos temas explanados nesta carta que o podem provar. E de variada proveniência. Também os teólogos católicos21 têm estado atentos a toda esta evolução. Se precisares que te cite fontes bibliográficas, fá-lo-ei numa futura carta. | 390 Unidos... mesmo em diáspora |
| É difícil andar pelo meio, evitando os desvios de direita e de esquerda. Também as mulheres tiveram desvios, recuos, fiascos: mas na sua luta de libertação há avanços definitivos e bem evidentes, irreversíveis (se bem que já tenha medo de dizer esta palavra...). E quem fala da mulher fala de muitos outros aspectos da libertação humana. Quem quereria recuar algumas décadas que fossem? Sabes quanto custou a Maria Montessori entrar na universidade?22 | 391 Utopia não é ilusão |
| Um abraço cheio de esperança e de entusiasmo do |
JÚLIO |
| Quelimane, 7 de Dezembro de 1991 . |
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| PÓS-ESCRITO: | |
Já depois de ter remetido a carta de 7/12/1991 e mesmo antes de obter resposta, não resisti sem te enviar algumas citações que de algum modo a ilustrem, documentem, mostrem que, embora em diáspora, não estou isolado. Converti-as em notas de fim do documento para melhor estruturação do conjunto do texto. |
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| Quelimane, 2/3/1992. | |
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| Denise: | |
| Não calculas a alegria que me proporcionaste com a tua carta de 9 de Março de 1994, recebida em Quelimane em 14 do mesmo mês. De facto, sempre que nos últimos anos tenho passado pela Suíça, não nos temos encontrado, ou por estares ausente ou por te imaginar tão ocupada que nem numa refeição pudéssemos estar juntos. Sobretudo quando estavas em Lausanne, quantas vezes pensei em ir ver-te! | 392 A alegria da amizade |
| Tenho em mente voltar à Suíça em Junho de 1995, mas, nessa altura, já terei setenta anos e, embora cada vez me sinta mais feliz no trabalho e na luta ideológica, e até me surpreenda ser velho, ser da terceira ou Quarta idade, ou ser do grupo da vida montante (vie montante – como tão delicadamente nos classificam os de língua francesa), a verdade é que sempre estive bem consciente de que em qualquer momento posso ser eliminado da arena por desaparecimento físico... Mas, se até lá isso não acontecer e se ainda estiver no activo, espero desta vez podermos estar juntos, como sempre tenho estado com os nossos comuns amigos desse maravilhoso País de montanhas e lagos e de uma democracia muito original. | 393 na vida montante |
| E, por falar em democracia, penso que sabes bem o que se está a passar connosco, porque foste uma daquelas que com entusiasmo nos ajudaste aqui, em Moçambique, e nos continuaste a ajudar quando regressaste à Europa. Sabes bem como o Povo moçambicano tem raízes ancestrais democráticas, como a nossa luta revolucionária foi sempre para construir a democracia – democracia nacional (primeira fase, conquistada pela independência), democracia popular (segunda fase, que ainda ajudaste a iniciar e que seria conquistada pelo poder popular durante uma década, planeávamos nós...), democracia socialista (terceira fase, que nem chegámos a iniciar, porque nem a segunda nos deixaram completar). | 394 Democracia unívoca? |
| E, pegando e repegando em certos desvios stalinistas em que, de facto, caímos, e confundindo-os com a essência do nosso projecto, querem-nos fazer convencer ou pelo menos que finjamos convencer-nos de que nada disso é democracia, que o Ocidente é que nos há-de ensinar o que é democracia e como a temos de construir. E temos de aceitar isto tudo de cara alegre e até com festejos, se não queremos que recomece a guerra a que chamam civil – mas nunca o foi – e que motivou milhares de mutilados, cerca de um milhão de mortos e milhões de deslocados. | 395 O ridículo (e não só) do paternalismo |
| E até os sectores que tanto se afligiam com a imitação de modelos orientais (que sabes muito bem nunca admitimos fosse servil ou mecânica) agora batem palmas à imitação mais do que servil dos modelos ocidentais. | 396 ...e da assimilação |
| E quando vozes tímidas de certos diplomatas reconhecem que de facto a democracia não se constrói em todos os países da mesma maneira, é já depois de nos terem obrigado a passar por cima da vontade popular (interessante não é? Uma "democracia" não baseada na maioria!) e de suportar todo o ridículo desta campanha... para divertimento (e proveito) do primeiro mundo. E, talvez mais humilhante ainda, termos de chamar doadores a exploradores. Evocação dos tempos em que se tinha de dizer obrigado depois de um saguati de palmatoadas?... | 397 ...e dos modelos e terminologia imposta |
| Temos de assistir a uma mistificação do voto, nos meios de comunicação e sobretudo nos templos, como se os verdadeiros destinos de Moçambique estivessem, de facto, na maneira de exercermos esse nosso direito e dever, sem uma explicação e um protesto sobre as limitações, o beco de difícil saída, que, à força das armas, desaguentámos evitar. Sem uma palavra sobre os verdadeiros centros de decisão, qualquer que venha a ser o resultado das eleições (com fraude ou sem fraude...), sobre as verdadeiras metrópoles (económicas e a histórica e cultural, é claro), sobre as novas coordenadas das Tordesilhas, digo, da Nova Ordem (?) económica, a que, de facto, não nos quisemos nem queremos submeter, e que nos custou o massacre acima referido e o assistencialismo apolítico e desinteressado, evidentemente(!), do primeiro mundo. | 398 Mistificação do voto e neometrópole |
| Por mais que nos queiram ensinar e por mais dinheiro que gastem nessa pedagogia, nunca chegaremos a perceber o que é democracia? Estará a razão do lado desses "analistas" portugueses? | 399 Maus alunos |
| De facto, porque tanto empenho no nosso voto, agora em que a escolha pouco altera o nosso futuro (sem negar que com ela poderemos minorar certos males), e não fomos consultados em questões essenciais como a adesão ao FMI? E para quê ter sido o Povo consultado sobre o mono e pluripartidarismo, se afinal se não respeitou a vontade da maioria e até se foi cair no multipartidarismo? Democracia é só fazer a vontade do Povo quando esta coincidir com a dos grandes? | 400 Decidir no acidental? |
| E isto sem falar nas vitórias forjadas muito democraticamente pelos métodos psico-sociais (em que embaixadas e organizações ditas não governamentais são mestras) e pela mentalização dos grandes meios de comunicação social (numa esmagadora maioria nas mãos da plutocracia). Que tiragem têm, por exemplo, os jornais que defendem os interesses da minoria privilegiada, e que tiragem têm os jornais que conseguem exprimir os verdadeiros interesses das maiorias, quer na parte utilizada quer na parte excedentária? | 401 ...ou nem isso? |
| É evidente que não queremos a guerra, e espero que já todos nos tenhamos convencido de que nem à defensiva voltaríamos a recorrer, nem como último recurso, porque a guerra nunca é justa, porque ela a curto prazo pode parecer eficaz, mas, por último. Vai sempre beneficiar a tal minoria. Os oprimidos têm de recorrer e reinventar outro género de armas, eficazes a longo prazo. | 402 Ou aceitas a nova psico-social ou suportas a velha repressão |
| Mas não podemos tolerar que se chame paz à não beligerância, que por todos os meios (e novamente os templos à frente de todos)se queira convencer a população de que estamos em paz. E se alguém pode saber que paz não consiste apenas no cessar fogo, embora este já seja uma grande vitória, são exactamente as hierarquias religiosas. Pelo menos a católica, além das Escrituras, dispõe de uma vasta documentação papal sobre o assunto. Por que será que, salvo raras excepções, a ouvimos constantemente empregar o termo paz quando o seu conteúdo não permitiria ir além de não beligerância? | 403 O equívoco da paz |
| Não queria ver nisto qualquer comprometimento com o neocolonialismo (agora consolidado com o termo do processo eleitoral) nem recordar o antigo comprometimento com o colonialismo. Mas não posso deixar de muitas vezes me perguntar: qual foi o requinte de maior crueldade dos nazis – o de fuzilar os prisioneiros ou de os deixar morrer à fome? Impossível desconhecer a situação económica da grande maioria dos moçambicanos. Por quê recorrer a bodes expiatórios em vez de reconhecer as verdadeiras causas? É claro que não vão ser os analistas do primeiro mundo que no-las vão dar. Mas se experimentássemos a coligação de analistas do terceiro e quarto mundos? | 404 Nova versão da cruz e da espada? |
| Denise: termino esta carta já no início da segunda semana de Novembro e já de posse da contagem de 75% dos votos. Quando penso no centro-norte, não posso deixar de recordar o que ouvia em Quelimane antes de ter mudado a minha residência para o Maputo: «–Vamos votar na RENAMO só para que não haja mais guerra.» E logo penso também no motivo da derrotados sandinistas já lá vão alguns anos. O factor medo é muito importante. | 405 O medo é democrático? |
| Mas isso não é o pior: o pior é chamarem a isso vontade do povo, democracia, liberdade. E não penses que só eu penso assim: vão-se multiplicando os intelectuais moçambicanos que se não deixam assimilar e vão encontrando maneiras de exprimir o sentir do povo e da sua cultura. Pascal dizia, se a memória me não falha, que o homem é maior do que o universo, mesmo quanto este o esmagasse... porque sabia que ia morrer. Sim, Denise, o moçambicano, enquanto homem do terceiro mundo, é maior do que o do primeiro, porque tem consciência do sistema de que está a ser vítima. Fatalisticamente? Não: quem soube libertar-se do colonialismo também saberá libertar-se do neocolonialismo, por mais que este recorra a novas formas tentadoras, subtis e mistificadoras e sobretudo neoconstantinianas. | 406 Consciência e liberdade renascem da derrota |
| Queria ainda elencar certas fontes, citações, explicações, confirmações de algumas passagens desta carta, mas ela já vai longa e gostava que ainda a recebesses no Vietnam e soubesses da minha mudança de residência – principal motivo de tanta demora na resposta. Daqui a alguns dias (semanas?) farei isso num pós-escrito... documental. | 407 e reagrupamo-nos |
| Um abraço desta neocolónia da União Europeia para essa neocolónia do Japão, se é que, com as transnacionais, ainda se pode falar em termos de coordenadas e tão linearmente. |
408 Paralelismo África/Ásia |
| JÚLIO |
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| Quase se fica com pena do dia 4 de Outubro neste ano de 1992 calhar a um Domingo, impedindo assim liturgicamente, a memória obrigatória de Francisco de Assis. Mas os textos23 do 27.º Domingo do Tempo Comum, se bem aprofundados até encontrar a sua flagrante unidade (à primeira vista nada simples sequer de vislumbrar), levam-nos facilmente ao jovem que, aos vinte e cinco anos, contesta e repudia a vida burguesa, submete-se a Cristo e à Hierarquia, e, mais tarde, propondo estruturas religiosas libertadoras, procura destruir as opressivas... que vão minando a Igreja, a sociedade e, sabe-se hoje, até o próprio Planeta. | 409 ocorrência e concorrência |
| Na primeira leitura, ouvimos Habacuc (ou seremos nós mesmos milhares de anos depois?) a protestar: «–Até quando, Iahweh, pedirei socorro e não ouvirás, gritarei a ti: violência!, e não salvarás? Por que me fazes ver a iniquidade e contemplar a opressão? Rapina e violência estão diante de mim, há disputa, levam-se contendas!»24 | 410 Surdez divina ou proposta de vida adulta? |
| E veio Cristo revelar o Reino em que se extingue para sempre a relação senhor-servo,25 e a escravatura vai mudando de nome,26 mas continua, tomando, por vezes, até formas mais requintadas, porque mais disfarçadas.27 E a guerra e a rapina continuam aqui mesmo ao pé de nós.28 | 411 Fracasso |
| E veio Francisco, retomando o Evangelho, tão esquecido ou retorcido até pelos que mais o deveriam praticar e difundir, e a ganância continua (quem ama a Dama Pobreza?), e a destruição da Terra intensifica-se (onde está a fraternidade do Cântico das Criaturas?). | 412 em cima de fracasso |
| E vieram tantos outros (e até nos nossos dias os profetas da ecologia e da não violência activa das mais diversas filiações),29 e insiste-se ou em querer resolver tudo pela violência ou em deixar correr... como passivos espectadores. | 413 e sempre fracasso? |
| Passam-se gerações e gerações, e a nossa reclamação continua no mesmo tom: «–Até quando, Senhor, implorarei sem que escuteis?»30 E Habacuc (e nós?) obtém resposta: «Então Iahweh respondeu-me dizendo: –Escreve a visão, grava-a claramente sobre tábuas, para que se possa ler facilmente. Porque é ainda uma visão para um tempo determinado; se ela tarda, espera-a, porque certamente virá, não falhará! Eis que sucumbe aquele cuja alma não é recta, mas o justo viverá por sua fidelidade.»31 | 414 Não será em vão a nossa luta |
| É que Deus não tem de prestar-nos contas,32 mas sim nós a Ele. Não reflectíamos, no Domingo 23.º deste ano C,33 em que ser cristão não é uma facilidade, mas uma exigência?34 A Palavra de Deus não falha, realiza-se, mas não é de nossa conta saber quando. A nossa esperança (a nossa espera) não será frustrada. Da nossa parte basta a fidelidade, a fé operativa, a fé com obras.35 Que obras? Obras de justiça e de amor. | 415 se a fé for operativa |
| Se continuássemos a ler Habacuc, encontraríamos as cinco imprecações, maldições: 1.º - contra os que acumulam o que não é seu;36 2.º - contra os que ajuntam ganhos injustos;37 3.º - contra os que constroem (casas, impérios, neocolónias?) com sangue;38 4.º - contra os que manipulam (propaganda, mass media?)39 5.º - contra os que fabricam ídolos (religiosos, políticos, desportistas, vedetas?).40 | 416 Os cinco pecados de ontem e de hoje |
| Cruzar os braços será ter fé? Será ser fiel? Fidelidade não será, pelo contrário, lutar – o termo é já de João Paulo II41 –, mais do que contra acções, contra as estruturas opressivas religiosas, políticas familiares, escolares, económicas e recreativas? | 417 As seis frentes da luta |
| O Reino está garantido: pela Incarnação do Verbo, o Rico fez-se Pobre, o Senhor fez-se Servo, a fraternidade universal é uma realidade: essas dicotomias jamais existirão. Quando?... «Se ela tarda, espera-a. Certamente virá, não falhará.»42 | 418 A Vitória |
| Mas não faremos uma triste figura43 perante o mundo? Não zombarão de nós, apelidando-nos de ultrapassados, apegados a causas perdidas? | 419 Quixotismo? |
| Paulo a Timóteo – estamos na segunda leitura44 – é bem claro:45 «–Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de sabedoria. Não te envergonhes(...), sofre comigo pelo Evangelho(...)». | 420 Ou realismo? |
| E novamente pensamos em Francisco, que não temeu46 nem os poderosos do dinheiro nem o ridículo (o que ainda custa muito mais): | 421 Franciscanismo: |
| 1.º - Repudia uma paternidade que virava opressiva, e passa a somente a Deus chamar Pai, como Cristo mandou de modo bem claro (por muito que pese a toda uma classe).47 | 422 - um único Pai |
| 2.º - Leva a sua fraternidade não só aos seres humanos, mas às feras, às plantas, aos seres inanimados.48 | 423 - e todos irmãos |
| 3.º - E vai mais fundo49, porque a Igreja e a sociedade não estavam a ser minados tanto por pecados isolados ou individuais, mas colectivos e, pior ainda, estruturados, institucionalizados. | 424 - estrutura de pecado |
| 4.º - Não é verdade que os mosteiros enriqueciam, ainda que individualmente os monges vivessem pobres?50 E a fraternidade não estava a ser minada por um clericalismo e por uma dicotomia entre monges de coro e conversos – estrutura que nos aparece, talvez pela primeiro vez, em Vallis Umbrosa, graças a João Gualberto?51 | 425 - senhores e servos vestidos de hábito |
| 5.º - Então Francisco, sempre submisso à Hierarquia e numa veneração a toda a prova ao clero, estabelece uma Ordem de Frades Menores (percebemos o que isso significa?) e um voto de pobreza não apenas individual, mas colectiva (a que estará hoje reduzida?).52 | 426 - estrutura libertadora |
| 6.º - E Francisco vive feliz53 nesta fraternidade (intimidade) com deus e as criaturas, não passivamente perante o mal (estruturado ou não estruturado), mas numa não violência bem activa: | 427 - a harmonia |
| 7.º - Não o vemos no Norte de África a falar com cristãos e muçulmanos para tentar impedir uma nova cruzada? E sem temer a morte nem as ironias dos grandes e dos seus lacaios? | 428 - oferecer a vida, mas nunca a tirar |
| E, depois disto tudo, termos de nos considerar servos inúteis?54 Não será demais? A primeira leitura55 propõe-nos esperar ainda que sejam séculos ou milénios; a segunda56 propõe-nos trabalhar sem medo e arduamente; agora a terceira57 não nos deixa reclamar, porque não fizemos mais do que a nossa obrigação... | 429 O cúmulo da exigência? |
| E se rezássemos como os Apóstolos: «–Aumenta-nos a fé!»58? Cristo não nos responderia: «–Se tiverdes fé como um grão de mostarda»59...? | 430 Maneira de a aceitar como carga leve |
| Perante tudo isto, não se torna bem claro que, sendo mesmo abandonados por todos os outros (o que não acontece), nós, cristãos, temos de continuar a lutar por uma sociedade equitativa, sororal/fraternal, livre, onde os rendimentos sejam proporcionais ao trabalho,60 onde todos participem nas decisões,61 e possam realizar-se plenamente?62 | 431 Mais responsáveis do que os outros |
| E, com os pés no chão, será algum mal caminhar sempre para novas estruturas, que, progressivamente, permitam cada um dar segundo as próprias possibilidade e receber segundo as necessidades?63 | 432 Mesmo para além do socialismo... |
| A guarda do depósito da fé,64 por vezes tão manipulado pelo reaccionarismo, não é uma força a mais que os outros não têm, e que não nos desculpará fraquejar perante esta nova (des)ordem mundial?65 | 433 Depósito passivo ou activo? |
| Será que a razão está do lado do mais forte, daquele que conseguiu (até quando?) vencer pelo poder das armas mortíferas e da manipulação dos meios de comunicação social? Mas será mesmo uma vitória definitiva ou uma prova para caminharmos melhor66 e com mais fé? | 434 Como nos duelos? |
| Afinal foi magnífico que o 4 de Outubro calhasse este ano num Domingo com textos tão ricos sobre a soberania de Deus e a nossa fé.67 | 435 Feliz concorrência |
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| Ao aproximar-se o vigésimo nono68 aniversário de 4 de Abril de 1968 que teve como alvo Martin Luther King, líder dos negros americanos, paradigma moderno de todos quantos não desistimos de estabelecer a fraternidade entre os seres humanos sem qualquer excepção, e prémio Nobel da Paz de 1964, lembrei-me de partilhar com os leitores deste Jornal uma reflexão de há longo tempo que me levou a um outro paradigma – este medieval – da não violência activa: Francisco de Assis | 436 Dois paradigmas distantes |
| É muito difícil penetrar nesta doutrina, e, pô-la em prática, muito mais: querer firmemente estabelecer a justiça e a equidade e, simultaneamente, por coerência e para eficácia, recusar pegar nas mesmas armas dos opressores. Se a violência é inaceitável, a contraviolência apresenta-se-nos como legítima defesa (individual ou colectiva), solução irrecusável como último recurso: tentação em que caíram guerrilheiros, filósofos marxistas e teólogos clássicos. | 437 da eficácia não aparente |
| No seio da Igreja Católica, perante as aberrações que a tentam destruir, sempre houve enfrentantes. Não queria apresentar exemplos, porque têm de ficar no silêncio muitos outros até talvez mais importantes. Mas, por motivos pontuais da minha vivência, bailam-me na cabeça nomes que não resisto sem evocar: o dominicano Bartolomeu de Las Casas a enfrentar a escravização dos índios, o leigo João Cidade (depois João de Deus), a enfrentar uma Inquisição espanhola, o papa João XXIII, a enfrentar o conservadorismo eclesiástico, o bispo Manuel Vieira Pinto, a enfrentar o colonialismo português, outro bispo, este claretiano, Pedro Casaldáliga, a enfrentar a nova "ordem" económica mundial. Ainda estava a pensar no bispo que enfrentou Salazar, António Ferreira Gomes, a quem devo, mais do que ter penetrado na filosofia perene, e muito para além disso, o ter aprendido a pensar e, talvez, sem exagero, o termos criado laços de amizade no convívio de alguns anos em Vilar e de alguns dias na sua residência de Penafiel e no exílio de Valência. (E parece que também ele admirava em mim qualquer coisa como o ter sabido ou saber fazer opções...) | 438 Enfrentantes em todos os campos |
| E perante as cruzadas? Nenhum enfrentante entre a cristandade? Queria acreditar e quero acreditar em que, no meio de todas a aberrações e mistificações, ao menos um pequeno grupo se tenha mantido sempre fiel ao Evangelho. Mas quando chegamos às cruzadas, em vez de ouvir Cristo total (cabeça e membros) a dizer: –Embainha a tua espada!, ouço papas, santos e doutores a bradarem: –Desembainhai as vossas espadas! (Como interpretar João, 18, 11, ou Mateus, 26, 52? Não será melhor irmos riscando estes textos incómodos para tranquilizarmos as consciências com estafados "justificativos" históricos?) | 439 Suposto hiato |
| Haverá, então, um hiato na sequência da fidelidade ao Evangelho? Nem um pequenino grupo, um pequeno resto aceitará integralmente o Evangelho? A luz veio-me do franciscano, doutorado em Strasbourg, Francis de Beer, que conheci através do n.º 169 – 1981/9 da revista CONCILIUM. Não houve hiato: eu é que estava na ignorância e, por infelicidade, largamente acompanhado. | 440 Ignorância preparada? |
| No meio de todo o meu trabalho, parece que não descansava enquanto não partilhasse69 com outros a minha alegria; e a ocasião aparece (pensava eu), quando me convidam para prefaciar uma biografia de Francisco de Assis que ia ser lançada, numa língua nacional, pelos capuchinhos de Trento. (Já nos inícios da minha carreira missionária tinha satisfeito semelhantes convites.70) | 441 Oportunidade de partilha |
| Em vez de prefácio, optei por escrever, à maneira de epílogo, o sentido de uma viagem ao norte de África. | 442 Alfabetização no norte de África |
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| Que Francisco de Assis não foi um pacifista71 – o que para Gandhi seria pior do que contraviolento72 –, mas sim um não violento activo,73 parece ser a conclusão a que se chega ao terminar a leitura desta pequena biografia.74 | 443 Três atitudes possíveis |
| Nem sombra de resignação perante o mal – físico ou moral, Beijar o leproso, desmarginalizar a lepra, foi o primeiro passo para a vencer. (Seriam precisos séculos para dar outros passos...) | 444 Contra o mal físico |
| Males de natureza moral exigiriam, porém, gestos igualmente radicais, mas de outro género, que não de ternura. A um voto de pobreza individual que pretendia coexistir com a riqueza dos mosteiros, acrescenta o de pobreza colectiva, hoje tão diluída por novos (ou caducos?) juridismos. Uma impossibilidade nos tempos actuais! Já há oito séculos se pensava assim, mas não os primeiros franciscanos... | 445 e moral |
| Perante a ideologia burguesa, não hesita em recorrer à agressividade, ainda que atinja o próprio progenitor, mas sem a menor quebra de dignidade e serenidade. (Também foram precisos séculos para que algumas Igrejas de uma América latina fizessem semelhante opção pela classe pobre, oprimida...) | 446 Opção de classe não de sangue |
| O lobo-homem é bastante mais sofisticado do que o lobo-animal: exigem-se, por isso, armas sempre não violentas, mas também sempre mais complexas. | 447 Armas apropriadas |
| E se esse lobo-homem se veste de púrpura ou se arma em defensor de Deus ou se arroga mesmo falar em Seu nome? Francisco, tão submisso à Hierarquia, tão devoto do Sacerdócio, alguma vez o enfrentou? Terá, perante ele, degenerado de paciente em resignado, de pacífico em pacifista, de contemplativo em fecha-olhos, de activo em passivo? | 448 A "obediência" e a objecção |
| É esta a dúvida que poderia ficar no fim das biografias que tenho lido. E é pena. É uma omissão que poria em causa todo um modelo de não violento activo, quando se sabe que Cristo foi exactamente para com esses lobos que mais dureza usou. | 449 Omissão cúmplice gera dúvida |
| Mas não: essa lacuna não existe. Existe, talvez, nas biografias escritas (sabe Deus por que motivos!), mas não na vida real de Francisco de Assis. A História salvou-nos da ignorância de um dos aspectos mais importantes da personalidade franciscana, e, também, da credibilidade da Igreja. | 450 A História liberta |
| Seria possível que a mística das Cruzadas75 toda uma ou mais gerações e que nem um santo ou um grupo de cristãos lhe resistisse e mantivesse a linha da tradição evangélica? | 451 Um hiato na fidelidade ao Espírito? |
| Não: um grupo de frades menores recusa-se à identificação de espírito de cruzada com espírito evangélico. Era na Segunda década do século treze, quando por toda a cristandade se pregava uma nova cruzada. E Francisco ardia por ser mártir... mas como cristão: não, jamais, como cruzado ou porque se identificasse com a Cruzada. Essa desidentificação, invulgar na altura, salva-o dos muçulmanos, mas arrisca-o a ser perseguido pelos próprios cruzados, que talvez não tenham passado a vias de facto por o considerarem louco. | 452 Alfabetizar os poderosos ...sem medo |
| E não era loucura querer dissuadir da guerra santa (Mete a tua espada na bainha...) Papa, Cardeais, Generais? Conheceremos outros loucos, assim, nos nossos dias? | 453 Sonho e loucura |
| Pior do que o martírio sangrento do Alverne alguns anos depois, deve Ter sido este de Damieta, porque, para ele, pior do que verter o próprio sangue, foi a incompreensão dos próprios irmãos na fé e dos próprios representantes da autoridade de Cristo. | 454 O pior martírio |
| Um fracasso? Que o digam os actuais objectores de consciência,76 os que não aceitam o recurso ao braço secular77 para impor as leis da Igreja, os que se recusam a servir como capelães militares, os missionários que se negam a acompanhar ou a ser protegidos por tropas coloniais ou neocoloniais, ou por diplomatas dos seus países de origem, os que evitam, não consentem, toda a semelhança (muito menos identificação) com a classe exploradora. | 455 Fracasso que gera eficácia |
| Quelimane, | |||
| Livraria Ovetekula | |||
| 27 de Janeiro de 1994 | |||
| JÚLIO |
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| FRATERNIZAR | |
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Júlio em meditação |
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Monumento a Patrício Lumumba na Avenidade General de Gaule em Strasbourg | ||
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Starsbourg, 00/00/2000 |
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| Júlio em meditação no monumento a Patrício Lumumba na Avenida de General de Gaule em Strasbourg no ano 2000 | ||
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| Ela só (a Realeza) - porque a sua autoridade não depende de confirmações periódicas - estará, normalmente, em condições de, à luz da justiça, tentar as reformas sociais mais arrojadas, sem perigo para a Ordem Social, que ou será justa, existindo, por isso, nos espíritos, ou não passará de «ordem aparente», de «transitória ausência de desordens». |
| (Do «Comunicado da Causa Monárquica» de 9-VII-951 por ocasião da Eleição Presidencial, subscrito pelo Lugar-Tenente de EI-Rei, o Prof. Doutor Fezas Vital.) |
| Obra escrita entre 1945 e 1950 |
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SEPARATA DA REVISTA DE PORTUGALIDADE GIL VICENTE GUIMARÃES 1956 |
| I–JUSTIÇA SOCIAL | |
| A) Fundamentos da Justiça social | 1 e 2 |
| 1) Específicos | 3 |
| a) Teleológicos | 4 a 10 |
| b) Ônticos. | 11 a 15 |
| c) Axiológicos | 16 a 18 |
| 2) Individuais | 19 a 23 |
| B) Concepção de Justiça social | 24 a 30 |
| C) Conclusões | |
| 1) Dificuldades | 31 a 33 |
| a) Económicas | 34 a 39 |
| b) Sociais. | 40 a 49 |
| 2) Soluções | |
| a) Possíveis discordâncias dos que não sofrem | 50 a 56 |
| b) Argumento dos que sofrem | 57 a 75 |
| II-TÉCNICA | 76 a 109 |
| A) Perspectivas técnicas | 110 a 113 |
| B) Nova escravatura | |
| Causas. | 114 a 123 |
| C) Obstáculos à solução | |
| 1) Interesses capitalistas | 124 a 127 |
| 2) Super-produção e desemprego | 128 a 134 |
| D) Soluções | |
| 1) Corporativa (insuficiente) | 135 a 143 |
| 2) Municipalista (eficaz) | 144 a 156 |
| Só na Monarquia será eficiente a solução municipalista | 157 a 165 |
| III-ACÇÃO ESTADUAL | |
| A) Localização do Estado na sociedade civil | |
| 1) Causas da sociedade civil | 166 |
| a) Eficiente | 167 a 173 |
| b) Final | 174 e 175 |
| c) Material e formal | 176 a 178 |
| 2) Condicionalismo | 179 |
| B) Orgânica estadual | |
| 1) Ineficaz | |
| a) Capitalismo | 180 a 188 |
| b) Socialismo | 189 a 193 |
| 2) Eficaz | |
| a) Descentralização | 194 a 205 |
| b) Centralização | 206 a 220 |
| IV-LIBERDADE | |
| A) Causas ônticas | 221 a 232 |
| B) Condições | 233 |
| 1) Estaduais | 234 a 236 |
| 2) Pedagógicas | |
| a) Igreja | 237 a 249 |
| b) Nobreza | 250 a 252 |
| c) Família e escola | 253 |
| C) Amplitude | |
| 1) Liberdade política e económica | 254 a 257 |
| 2) Liberdade civil | |
| a) Aspectos | 258 a 261 |
| b) Limites. | 262 a 271 |
| V-PLENITUDE DOS TEMPOS | |
| A) Aspectos da plenitude dos tempos | |
| 1) Plenitude da Justiça social | 272 a 274 |
| 2) Plenitude da técnica | 275 a 276 |
| 3) Plenitude da acção estadual | 277 |
| 4) Plenitude da liberdade | |
| a) Momento imperial | 278 e 279 |
| b) Momento católico | 280 e 281 |
| B) Significado da plenitude dos tempos | 283 a 287 |
| Conclusão | 288 a 294 |
| NOTAS |
| Não é uma expressão vã como tantas que se ouvem para aí. Não foi a habilidade política que a inventou (embora a explore por vezes). Não é arbitrariamente que se pronuncia. Justiça social encontra os seus fundamentos na mais íntima onticidade. É sobre esses profundos alicerces que vamos iniciar este estudo. | 1 |
| Na consideração dos seres encontramos sempre dois princípios que nos dão a sua explicação última intrínseca - a especificação e a individuação. | 2 |
| 1 - Específicos | |
| Comecemos pela especificação. Três momentos podemos considerar aqui - o teleológico, o ôntico e o axiológico. | 3 |
| Teleológicos | |
| Momento teleológico | 4 |
| Visão do homem: o seu aspecto anatómico ou físico ordena-se ao químico, este ao fisiológico, este ao sensitivo, e este ao racional. | 5 |
| Visão da Natureza: os minerais ordenam-se aos vegetais, estes aos animais, estes aos homens, e estes a Deus. | 6 |
| Há uma distinção de razão raciocinada maior entre esses aspectos do homem, os quais constituem uma unidade substancial. E há uma distinção real e separação relativa entre os elementos da Natureza, que constituem uma unidade acidental, de ordem - o chamado Universo. No microcosmo (homem) a parte inferior limita a superior, e esta sublima aquela. Há uma ordenação final intrínseca. No macrocosmo (Universo) os elementos inferiores servem os superiores, e estes servem-se daqueles. Há uma ordenação final extrínseca. | 7 |
| Em conclusão: 1) Além do fim específico, há dois extra-específicos: um infra-específico (sublimar as partes inferiores) e outro supra-específico (ministerial) no qual está a plenitude teleológica. | 8 |
| 2) No homem verifica-se isso entre as várias diferenças específicas que constituem a sua essência. Na Natureza verifica-se isso entre as variadas espécies essencialmente distintas. | 9 |
| 3) As espécies superiores têm o direito de se servirem das inferiores, e estas, portanto, têm o dever de as servirem. Como estas noções jurídicas subentendem natureza racional, na Terra só o homem goza de tal direito sobre as espécies inferiores. Mas surge uma questão interplanetária insolúvel talvez: Como se não sabe se em outros astros haverá habitantes dotados de qualquer parcela espiritual, ignoramos até que ponto, o homem será senhor do Universo. | 10 |
| Ônticos | |
| Momento ôntico | 11 |
| Considerando os seres 'tais, isto é, em concreto, temos o aspecto físico da questão. Os seres, fisicamente considerados, podem ser simples (ou espirituais) e compostos (ou materiais). Estes, anorgânicos ou orgânicos. Estes, viventes ou sensitivos. E estes, finalmente, brutos ou racionais. | 12 |
| Considerando os seres não no modo de ser, mas como seres, isto é, no 3° grau abstracto, lemos o aspecto metafísico - fundamento do físico, explicação última de tudo. É o transcendental abstracto que só predicamentalmente se pode concretizar (como acabamos de ver na consideração física). É ainda o Transcendental concreto. O ser, como transcendental, nas criaturas não, se pode concretizar, porque transcendental diz tudo, infinito, e as criaturas são, necessariamente, finitas. | 13 |
| O ser, como transcendental, só em Deus se concretiza. Este ainda pode ser considerado filosófica ou teologicamente, consoante tomarmos os dados da razão natural ou os da razão sobrenaturalizada pela Revelação. | 14 |
| Em conclusão: Ônticamente, o físico é explicado pelo metafísico, e, neste, o transcendental abstracto é explicado pelo concreto, e, neste, finalmente, o aspecto natural é explicado pela fé. Isto não significa confusão de ciências, mas harmonia e colaboração só possíveis se aquelas se mantiverem distintas. Do que não pode restar dúvida é de que a Metafísica é o centro de todo o saber, e de que da fé jorra muita luz sobre toda a Cultura. | 15 |
| Axiológicos | |
| Momento axiológico | 16 |
| A ordem teleológica será apenas existente ou também válida? E a ordem ôntica será apenas constitutiva ou também normativa? | 17 |
| A teleologia terrestre exprime não apenas uma constituição ôntica, mas ainda um dever-ser, que lhe dá carácter normativo. De facto, as espécies dos vários elementos do Universo e os aspectos do homem são autênticos valores. A sua teleologia exprime a hierarquia desses valores. E ainda quando os elementos dotados de livre arbítrio não respeitam a ordem valorativa, esta continua a ser válida, a dever-ser. | 18 |
| 2 - Individuais | |
| E passemos à individuação. | 19 |
| Esta penetra o ser totalmente como a especificação. São dois princípios identicamente indispensáveis para a explicação ôntica. | 20 |
| A individuação apresenta-se, nas naturezas intelectuais, com um novo aspecto - a personificação. Os brutos são indivíduos. O homem é pessoa na medida em que é espiritualizado, e indivíduo na medida em que é materializado. É sempre e necessariamente uma coisa e outra. | 21 |
| Onde se radica a individuação? A espécie vem da forma substancial - elemento "quo" pelo qual a inteligência conhece o ser. O indivíduo vem da matéria-prima o outro elemento "quo" inacessível ao conhecimento. Conhecemos, de facto, o que há de específico no homem animalidade e racionalidade. Mas é-nos vedado conhecer a diferença essencial - a " haecceitas" - de cada um. Por isso nos limitamos a diferençá-los pelas notas individuantes. | 22 |
| Mas há, é forçoso, uma explicação mais profunda. Não são apenas os acidentes a diferençar-nos: estes são já a manifestação da diferença essencial. Doutro modo seríamos todos uma só pessoa, seríamos meros acidentes ou manifestações desse único homem. Também não explicaríamos o indivíduo pela forma (especificadora). Esta é que lhe dá actualidade, mas não o explica radicalmente. Muito menos interessa para aqui a explicação extrínseca da causa eficiente: o que nos interessa é o porquê intrínseco ao ser. Esse porquê último, radical, encontramo-lo na matéria-prima em ordem à quantidade. | 23 |
| Com este panorama ôntico ficamos habilitados a conceber a verdadeira justiça social. Apenas tocamos os pontos fundamentais que interessam ao caso e fugimos de explicações e desenvolvimento. O nosso intuito é apenas partir dos dados do Tomismo e não prová-lo. São inúmeros os compêndios e as obras em que tal trabalho está feito. Seria desviar-me do caminho repeti-lo. Mas quem conhecer bem o Tomismo, repassou pela inteligência estes grandes problemas e viu bem os fundamentos metafísicos da justiça social. | 24 |
| Uma aplicação coerente destes princípios filosóficos leva-nos já a rejeitar a falsa concepção comunista que pretende só seja possível a justiça social por meio da propriedade colectiva (com exclusão absoluta da particular) e da distribuição estática (igual para todos e em todas as circunstâncias) dos bens vitais. Não: a natureza humana exige, de facto, a propriedade colectiva, mas só na medida requerida pelo bem comum; e exige, portanto, a propriedade particular limitada por esse mesmo bem comum (o que legitima impostos, expropriações, nacionalizações, municipalizações, fiscalização, etc.) e limitada ainda pelo bem particular do semelhante, quando este é atingido nos seus direitos: os que não possuem o mínimo vital têm o direito de o exigir aos que possuem o supérfluo. Destas últimas palavras parece-me poder concluir-se o que seja a justiça social palavra tão repetida e tão pouco realizada. | 25 |
| Justiça social não é, portanto, justiça comutativa (pela qual temos o direito de exigir a paga daquilo que fornecemos), nem é justiça distributiva (pela qual temos o direito de exigir do estado que nos faça, equitativamente, participantes do bem comum), nem é justiça geral (pela qual o estado tem o direito de exigir o nosso equitativo contributo para a realização do bem comum). Justiça social não é ainda o altruísmo, filantropia ou humanitarismo - sentimento e virtude naturais que nos levam a proteger o semelhante de graça, por favor, mesmo sem obrigação estrita; nem é mesmo caridade, que é o próprio humanitarismo realizado já não por simples motivos naturais, mas por um amor sobrenatural. | 26 |
| Justiça social é a virtude pela qual temos de entregar o supérfluo aos que não possuem o mínimo vital. Não é por favor que o fazemos: eles têm o direito a esse mínimo vital pelo próprio facto de serem homens como nós. | 27 |
| E não nos atemorizemos com a insistência nestas palavras: justiça, direito. A caridade não as veio banir. E, do mesmo modo, elas não tiram a vez à caridade. Sob o pretexto de caridade, muitas vezes se falta à justiça, e muitas outras se passa, vaidosamente, por fazer um favor, quando nem sequer se cumpriu, completamente, um dever estrito | 28 |
| A caridade não veio substituir a justiça, mas sublimar as relações com o próximo. | 29 |
| Ao fazeres justiça, fá-la como quem faz o estritamente obrigatório e não como quem faz um favor. Mas não te limites nunca a esse dever de justiça: sobrenaturaliza todos os teus actos pela caridade. Só pela justiça não te salvas: precisas de amar. Mas se quiseres amar sem ser, primeiro, justo, enganas-te a ti mesmo, porque é impossível amar sem ser justo. Entrega o supérfluo aos pobres, ama-os e neles ama Cristo - e serás salvo. Se não entregares, porém, o que pertence ao pobre e se o não amares - serás condenado. E lembra-te de que os pecados dos outros (mesmo dos mais ricos do que tu) não justificam os teus. | 30 |
| 1 - Dificuldades | |
| E eis-nos habilitados a tirar certas conclusões impostas pela justiça social. O supérfluo há-de ser distribuído, na medida necessária, para que todos tenham o mínimo vital dinâmico (adequado a cada um e a cada circunstância). | 31 |
| Mas esbarramos com dificuldades intransponíveis sem uma modificação radical da rotina económica e social em que vivemos, não obstante o esforço corporativo do Estado Novo. A vida económica está cheia de círculos viciosos, contradições e incertezas, que só aproveitam a uma pequena minoria capitalista - desfrutadora das mais fabulosas riquezas à custa da maioria que geme dê dificuldades e, muitas vezes, até de fome e frio. Essa plutocracia tudo maneja na sombra, sacrifica vidas, povos e civilizações, e não sei se é mais venenosa quando lança mão da revolução e da guerra, se quando corrói por dentro a sociedade e as suas organizações mais úteis e bem-intencionadas. (Que esta é uma eloquente faceta da Maçonaria é supérfluo esclarecer.) E esta minoria maneja e ilude as próprias massas que imola ao seu egoísmo, e diz-se a sua protectora e defesa (!). E as próprias massas que passam fome, frio e vivem infectas "ilhas", prestam homenagem e seguem esses "mestres" hipócritas, podres de dinheiro e podres de consciência. | 32 |
| É assim que essa plutocracia consegue ser (ia dizer, se não fosse blasfemo) omnipotente. É esse o capitalismo moderno que tem merecido as condenações dê Roma - daquela Roma infalível, vigilante e misericordiosa, que vela pelos pobres e indigentes, pelos que gemem sob a oculta influência da pior de todas as seitas e pior de todos as heresias - o capitalismo mação. Se o comunismo é ateu, este é diabólico. E ao atacar um, é preciso nunca perder de vista o outro. Os comunistas são desmacarados por Moscovo, mas os outros sabem trabalhar melhor … Vale a pena ler o artigo "La Chiesa Cattolica e il Capitalismo" (in L'Osservatore Romano, Cittá del Vaticano; 8 Maggio 1949). Nunca é de mais firmar bem a posição da Igreja. | 33 |
| Económicas | |
| A primeira espécie de di |